Trabalhar as emoções



O jogo, especialmente na versão de faz-de-conta, oposição e limite, e porventura também com os factores sorte e azar, ajudam a expressar e lidar com os sentimentos. A teatralização das brincadeiras é uma forma da criança poder sentir-se livre para expressar o que sente. Muitas crianças desta idade têm receio de dizer o que pensam, com medo de represálias, e muitas também nem sabem como dizer, em palavras, o que lhes vai na alma – daí a génese de algumas birras ou de irradiações intempestivas de felicidade.

O jogo e a brincadeira podem, como no caso do Jorge, em seguida relatado, fazer explodir «minas»» antigas ou ajudar a compreender coisas que na ocasião não entenderam, ou às quais não deram o devido sentido ou importância.

Só a rever a cena, através do jogo tão bem encenado pelo pai, o Jorge percebeu o que
lhe tinha acontecido no jardim-de-infância, e a sua reacção não foi para o pai, foi para o outro menino. Ao retardador, coisa que para o pai e para a avó, logicamente, foi incompreensível. Ensinar a ganhar e a perder, e a saber ganhar e a saber perder são tarefas fundamentais. Reparem: não devem dizer aos vossos filhos, como frequentemente se ouve, que ganhar e perder são a mesma coisa. Não são. Ganhar
traz alegria, perder traz tristeza. E é muito bom que eles queiram à partida ganhar.

O que se deve ensinar é a saber que umas vezes se
ganha e outras se perde. E que quando se ganha deve-se ficar alegre, mas não arrogante e com vontade de humilhar os que perderam, e quando se perde deve-se saber dar a volta e ter a coragem – porque às vezes é preciso coragem – de cumprimentar os vencedores, analisar o que correu mal e preparar-se para
o jogo seguinte.

Jogar e brincar fazem parte da vida e não devem ser abandonados só porque se
cresce. É como se deixássemos de respirar no dia em que fazemos 18 anos ou não nos
alimentássemos mais depois de casar, por exemplo. Mas levar a sério a brincadeira
como se estivéssemos no trabalho também não serve.

O jogo pode ser uma boa forma, também, de ajudar a criança a crescer no sentido de
descentrar de si tudo o que acontece. Até aos 5 anos (ou até nesta idade), a criança
assume a culpa do que acontece, sejam as discussões dos pais, sejam factos que nada
têm a ver sequer com responsabilidades de pessoas.

Entender que se podem criar várias versões das histórias fictícias, ajuda a perceber
que as responsabilidades, culpas e ónus também se poderão distribuir por várias pes-
soas, e não necessariamente sempre pela criança.

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