Televisão e violência ou violência e televisão



De quando em quando assiste-se a debates inflamados sobre este tema. E pessoas geralmente tidas como tolerantes surgem, neste particular aspecto, com uma intolerância quase fundamentalista.

É inegável que a TV pode ser uma montra de violência, quer do ponto de vista ético,
quer estético, sobretudo quando a utilização da violência é gratuita, auto justificada, ou quando serve como argumento de primeira-mão (utilizada pelos «bons» em vez do diálogo ou de vias pacíficas) e branqueada e legitimada.

As investigações em «laboratório»» mostram que assistir a um filme violento na TV leva as crianças a serem mais agressivas com os bonecos e nas suas brincadeiras. Há que ressalvar, no entanto, que estes estudos não são extrapoláveis para as condições reais, ignorando-se também se esses efeitos se mantêm a longo prazo. Por outro lado, inúmeras situações do dia-a-dia não televisivo (em casa, na escola, na sociedade) têm igualmente uma carga violenta, se bem que por vezes não tão evidente como então
separar o peso específico de cada uma destas causas?

Será então a TV uma ameaça? Ou será apenas o bode expiatório de todos os males?

Será a culpada ou a vítima? Provavelmente, o consumo de TV, quando manifestamente exagerado, será afinal e apenas o espelho trágico de algumas angústias e partes más da condição humana, que existe em toda a gente – crianças, adultos, famílias e toda a sociedade, e do isolamento em que vivem muitas pessoas de várias idades.
A associação do fenómeno da «TV babysitter» com a «TV violência» é uma realidade: mais de 80% dos programas são vistos pelas crianças sem supervisão. Este facto é negativo, tanto mais que três quartos dos programas do prime-time têm violência, seja nos próprios programas, seja nos trailers e «promos» de outros programas. Mas, mesmo tendo presenciado numerosos actos violentos no ecrã, quantos terá a criança presenciado na vida real e qual a influência de cada um destes atos na formação da sua personalidade? Uma bofetada do pai, intempestiva, não justificada, vale quantos tiros numa série policial? Ouvir os pais discutirem e agredirem-se verbalmente equivale a quantos rebentamentos de carros armadilhados no Iraque? Ser injustamente
castigado pelo educador será o mesmo, em termos de carga violenta, que assistir a um
documentário realista sobre o holocausto?

Por outro lado, quando falamos de violência na TV podemos estar a referir-nos a muita coisa, não apenas o que surge nas imagens, mas também a banda sonora, linguagem, ritmo, ambiente global, argumento, psicologia das personagens, cenas de brutalidade, crueldade ou medo, subversão, etc., ou seja, falamos de aspetos da forma e do conteúdo. E que dizer da violência real passada nos telejornais, ou da ficcional mais pura como a dos desenhos animados?

As crianças gostam, de colher as suas ideias em alguns locais, temperando-as de-
pois com as suas fantasias. Ao verem um enforcamento com todos os pormenores acessórios e no contexto que foi, a ideia de ver o que aconteceria, «Como é aquilo?»,

»Deve ser porreiro dar um salto assim, mas eu depois consigo agarrar-me à corda.», etc, e ainda por cima com material facilmente encontrável (uma corda), pode gerar acção.

O hiato de segurança entre estes pensamentos e o comportamento deveriam estar almofadados pela personalidade, valores éticos, clara margem de segurança entre a fantasia e o ato, etc, etc, mas muitas crianças, por diversos fatores, têm essa margem muito ténue e facilmente passam para o «lado de lá» desde que a sugestão valha a pena, convencidos de que dominam tudo e que a qualquer altura mandarão «parar o filme».

A imitação dos outros é um valor acrescentado para as crianças – e não será bom tentarem imitar um Fernando Pessoa, uma Maria João Pires, um Obikwelu ou um Simão Sabrosa, e também o senhor que vende os cromos do Noddy, a educadora, a personagem de um livro que se leu, a vizinha do 7° direito, o chefe do pai ou a miúda da turma que tem mais saída… o pai e a mãe?

Os comportamentos de imitação podem, assim, ser sinal de que se ama aquela pessoa
e que ela representa um modelo, ou uma exploração para descoberta da face oculta
desse gesto.

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