Televisão – amiga ou inimiga?



A televisão faz parte das nossas vidas. É um fenómeno omnipresente, com grande capacidade de intrusão mas, simultaneamente, um intruso que se acompanha de um raro fascínio. Modela atitudes e opiniões, contribui para a definição de valores e modelos de comportamento individuais e colectivos, familiares e sociais. E, como não podia deixar de ser, faz parte da vida (e da qualidade de vida) das crianças portuguesas. É raro o lar onde não existe um (ou mais) aparelho receptor, e muito
do tempo em que passam acordadas, as crianças estão em frente do televisor. Segundo um estudo, em Portugal, o número médio de horas passadas em frente do televisor,
para a população em geral, é de cerca de 4 horas, superior assim à média da União

Europeia. Mesmo assumindo alguns vezes metodológicos neste estudo, o facto não deixa de levantar algumas questões.

Para que não restem dúvidas de qualquer espécie, não sou de forma alguma contra a
televisão nem desejo ou aplaudo formas de censura, manifesta ou encapotada. Sublinho
também, com traço bem nítido, que a TV tem inúmeros aspectos positivos inestimáveis.

Tem-nos e muitos, designadamente enquanto:

• fonte de informação;
• fonte de entretenimento;
• factor de ampliação dos horizontes;
• multiculturalidade;
• formação cultural;
• formação científica;
• fator de democratização e de garantia da democracia.

Sem querer centrar esta reflexão nos problemas decorrentes de ver televisão, é essencial referir alguns dos efeitos colaterais documentados na literatura:
• alterações da visão, que têm a ver com a luminosidade do ecrã e com o facto de a
imagem ser composta por uma série de pontos Nas crianças com menos de 2 anos
e meio, dado que há maior dificuldade em reduzir estes pontos a uma imagem coe-
rente, o efeito poderá ser mais acentuado.

É claro que os efeitos negativos visuais estão também dependentes das condições
em que a emissão é vista, designadamente a iluminação da sala, distância e resolução
do ecrã, intervalos regulares sem olhar para o televisor, entre outros;

• audição, que pode ser também perturbada, embora bastante menos do que com os rádios e IPODs;
• erros nutricionais, como consequência do abuso dos alimentos snack, que se ingerem
com o objectivo de não perder tempo e de poder comer os alimentos em frente à televisão (o que obviamente não seria tão exequível com a comida tradicional);
• falta de exercício físico, decorrente do tempo que se passa em frente do televisor
(geralmente em posições ortopédicas viciosas); associada aos erros nutricionais, a
falta de exercício acaba por poder ocasionar obesidade;
• estilos de vida e comportamentos prejudiciais, donde sobressaem a passividade física e intelectual, a falta de criatividade e de uso da imaginação, a falta de comunicação que resulta muitas vezes num verdadeiro «eremitismo» e um controlo dos sentimentos do próprio por parte dos protagonistas ou até dos locutores;
• diminuição das actividades criativas e dinâmicas, designadamente exercício físico,
actividades artísticas, actividades criativas (como ler um livro ou simplesmente pensar), conversar e escutar, e outras atividades de lazer. Ler um livro, por exemplo (tal como o teatro está para o cinema), exige um esforço de imaginação das cenas, dos ambientes e das personagens, bem como uma interpretação subjectiva, o que em TV pouco existe;
• diminuição das actividades no exterior, ao
ar livrei
• exposição a anúncios e promoção de produtos lesivos para a saúde das crianças;
• problemas de sono, especialmente antes dos 3 anos. por excesso de estimulação por se deitarem tendencialmente mais tarde, mas também por medo sugestionado por cenas que viram;
• isolamento familiar e afectivo, pela falta de tempo para estar com os pais, ouvir e contar histórias, dar mimo ou outros tipos de interacção familiar;
• conflitos de valores e de mensagens, entre o que a TV propala (em anúncios ou telenovelas, por exemplo) e o que os pais dizem.

Comentários

Televisão – amiga ou inimiga? | Para Pais.