Saúde



Pediatra ou, simplesmente,«médico assistente»?

Segundo os resultados do último Inquérito Nacional de Saúde, publicado em 2001, as crianças entre 0-4 anos frequentaram cerca de dois milhões de consultas num ano, enquanto as crianças entre 5-14 anos foram a cerca de um milhão e setecentas mil. Cerca de metade destes, quase 4 milhões de consultas, foram motivadas por doença. Comparando as consultas de pediatria e as de clínica geral, pode constatar-se que, entre os 0-4 anos, as de pediatria foram 43% e as de clínica geral foram 57%. Entre os 5-14 anos, a relação é ainda mais desequilibrada: 16% para a pediatria e 84% para a clínica geral.

É esta a realidade do país.
Pediatra? Médico de Clínica Geral? Médico de Família? Ou, simplesmente, Médico Assistente? Ouvimos e lemos de tudo. Nas conversas, em artigos médicos ou em revistas para pais. Muitas vezes fala-se de «ir ao pediatra» como se de um sinal exterior de riqueza se tratasse. E para aqueles pais que decidem ou têm que levar o filho a um médico de clínica geral/médico de família, pode ficar a ideia de que, à partida, o seu bebé será pior assistido. Só que as coisas não são assim tão simples. Em Portugal, por várias razões históricas, o número de pediatras não chega sequer para o trabalho hospitalar e o nosso sistema oficial baseia-se, constitucionalmente e em toda a legislação existente na área da Saúde, em
cuidados de saúde primários onde há quase cem médicos de clínica geral para um pediatra que se encontram muito mal distribuídos.

Ao nível da organização do sistema de saúde esta questão já há muito tempo que deixou de ter sentido, quando cada vez há menos módicos (qualquer que seja a especialidade) e nos próximos tempos a capacidade de formação continua reduzida. Se os tempos vão «mal», «piores» tempos virão, no que toca ao número de pediatras.

No que respeita à capacidade de ser módico assistente de um bebé, não se pode particularizar a questão. Há pediatras excelentes e médicos de clínica geral formidáveis. Por outro lado, já se viram coisas pouco recomendáveis de uns e de outros. A especialidade, neste caso, não quer dizer nada, até porque os médicos de clínica geral, médicos de família, são eles próprios, neste momento, todos especialistas. E se os pediatras estão porventura melhor equipados para fazer face a situações de doença e para o conhecimento das características e idiossincrasias das crianças, já os médicos de clínica geral, que são médicos da família, estão bastante à vontade no lidar com problemas do ecossistema familiar e com a dinâmica, tantas vezes patológica, dos agregados familiares.

Uma coisa é certa, todas as crianças devem ter um médico assistente, seja trabalhando mais isoladamente, como os médicos no consultório, quer em articulação mais directa com uma equipa de saúde da qual fazem parte outros especialistas (enfermeiros e outros profissionais), como acontece em alguns centros de saúde.

Durante muitas décadas, em Portugal, a prestação de cuidados às crianças foi feita por pediatras, dado existirem muito poucos médicos de clínica geral os que havia eram médicos municipais ou do tipo que, sublinhe-se, em muito contribuíram para a melhoria da saúde deste grupo etário. Algumas das crianças eram seguidas nos dispensários ou em consultórios privados, mas, não esqueçamos, a larguíssima maioria das crianças não tinha pura e simplesmente um médico assistente regular e a dificuldade no acesso à saúde era muito grande.

Com a reorganização dos serviços e com a entrada em funções, em 1982, do estatuto dos centros de saúde e da carreira de clínica geral, estes médicos de família passaram a ter um papel muito importante na vigilância da saúde das crianças e dos adolescentes.

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