Quando a verdade se abate sobre nós…



O diagnóstico de cancro numa criança é devastador. Devastador para a família, devastador para a própria, devastador para o sentimento de que os nossos filhos nos sucederão, nos ciclos geracionais.

A vida altera-se. Em tudo. Desde a organização do dia-a-dia aos aspetos económicos e laborais, já sem falar nos afetos e sentimentos. A criança doente torna-se, como é natural, o centro das atenções, o que pode suscitar reações em cadeia dos vários familiares envolvidos, designadamente dos irmãos.

Entre o pensar-se que tudo foi um sonho (ou um pesadelo) do qual se acordará, e perceber que é um tsunami imparável que se apoderou da vida da família, são múltiplas as fases por qual cada um passa, não as vivendo simultânea ou concertadamente, o que ainda aumenta mais o sentimento de perplexidade e de falta de capacidade de lidar com a situação.

Cada família reage de maneira diferente. No entanto, há padrões reacionais que são quase comuns a todos os envolvidos, mesmo que a intensidade, expressão e duração sejam diferentes.

Choque – não estamos nunca preparados para que os nossos filhos possam morrer primeiro do que nós. Não é normal nem natural. Não é esperado que sofram. Este estado de completo absurdo prejudica muitas vezes o entendimento do que é que realmente se está a passar, designadamente da necessidade (quase sempre urgente) de fazer exames e iniciar internamentos e tratamentos (radioterapia, cirurgia, quimioterapia).

É importante que, não apenas os profissionais, mas os amigos e familiares, protejam os pais e as crianças, mas conferindo-lhes, a pouco e pouco, a noção do que se passa é a verdade. Ajudar a fugir da situação é um mau serviço que se presta.

Negação – o médico enganou-se. Os exames foram trocados. Afinal está melhor. Vamos pedir mais uma, e outra, e outra opinião. Já houve casos em que disseram que era cancro e o que se passava era falta de qualidade do serviço. Mais uma vez, profissionais e leigos têm de apoiar os pais, pondo-os à vontade para ouvirem mais opiniões, mas desde que isso não faça perder tempo útil.

Medo e ansiedade – que me interessa que a taxa de cura seja de três quartos, se não o é em um quarto? E o sofrimento? E a vida normal que tínhamos? E os empregos? E os outros miúdos? E a escola? E tanta e tanta coisa? E ter de frequentar os serviços onde circulam as crianças sem cabelo, magras, ligadas a soros? E se os médicos resolvem fazer experiências?

A necessidade – já respondida nos centros de qualidade, de uma resposta integrada e em equipa ajuda muito os pais a entender o que lhes está a acontecer. Pediatras, outros médicos, psicólogos, assistentes sociais, educadores…são muitos os recursos destas equipas transdisciplinares que podem ter um papel formidável na gestão de cada caso.

É fundamental que os pais peçam informação e que não desistam de a obter, até terem compreendido totalmente o que lhes é dito. Não que possam saber o que os próprios médicos não sabem, como vai acontecer isto ou aquilo. Mas saber a verdade, por dura que seja, é melhor do que deixar a imaginação sujeita às flutuações do humor diário, das opiniões dos leigos ou das informações da Internet.

Tristeza e depressão – poderá haver, alguma vez mais, alegria, saúde, à-vontade? Poderemos voltar a deixá-la correr? Ir à escola? Brincar? Felizmente há mecanismos de controlo dos pais que podem fazer com que, num momento de depressão de um deles, o outro esteja numa fase de esperança. Expressar os sentimentos, com liberdade, é fundamental. Chorar quando apetece chorar, rir quando apetece rir, sem sentimentos de culpa num caso ou noutro. A vida reorganiza-se, e para muitos pais é custoso e culpabilizador ir ao cinema ou a case de amigos.
Surge um sentimento de traição relativamente à criança doente, que na maioria dos casos não tem qualquer razão de ser.

Raiva – que Deus, que coisa é esta, que raz uma partida destas a uma criança inocente? Ou então alguém errou e o que estão a fazer é tornear e encobrir o erro. A sensação de impotência, de incompreensão e de perplexidade são demasiadamente fortes para se poder lidar com elas, de um dia para o outro.

Há que dar tempo ao tempo, procurar apoios de vária ordem – religiosos, espirituais, conselheiros, psicólogos, amigos, seja quem for -, que nos ajude a perceber que somos muito mais vulneráveis e de condição aleatória do que algum dia pensámos.

Incompreensão – o sistema de saúde, os serviços, os médicos, camas, internamentos, enfermeiros, tratamentos, aparelhos, palavrões da medicina, medicamentos. E as outras famílias, e as outras histórias. E aquelas crianças a quem nos afeiçoámos nas enfermarias e que já não estão…sem saber porque é que já não estão, se por estarem melhores ou, pelo contrário.

É preciso que os mais próximos ajudem a família a reorganizar-se, e a arranjar atividades, porventura novas, em que se possa gerir melhor a mente, o corpo, as emoções, o tempo. Massagens, técnicas orientais, artes marciais, passeios, corrida, desporto, seja o que for, embora o tempo que sobre para as atividades extra seja, infelizmente, muito escasso.

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