Para que serve a escola?



Pelo menos, no espírito das crianças esta questão pode estar subjacente. Para quê, se são felizes assim?! É difícil entender aos 5 anos, que há um futuro para além do fim-de-semana que vem. Mesmo descontando a (muita) «palha» que o ensino tem, mesmo sem contar com as inutilidades objectivas que se transmitem e só ocupam espaço, há informação e conhecimentos que têm de ser dados, e que são como as fundações de uma casa: feias, mas que serão depois encobertas, e que seguram e sustentam a casa, e sem as quais esta, por mais bonita que fosse, cairia ao primeiro abanão. Mas visto que esta «base estrutural» é, frequentemente, pouco entendida nos seus objectivos e maçadora nos seus conteúdos, há que arranjar uma forma de a incutir que seja minimamente lógica e lúdica.

Muitos dos insucessos educativos começam aí: na incompreensão das razões da escolaridade e de certas matérias, quantas vezes ensinadas de forma totalmente desligada dos assuntos correntes da vida da criança.

Este aspecto faz-me lembrar outro: a necessidade de que a Escola seja parte integrante da vida da criança. E que o seu dever é descobrir talentos e competências, detectar fragilidades, tentar dar informação, conhecimentos mas, sobretudo, transmitir sabedoria que seja geral e sólida. E «boa para todos», mas respeitando que uns podem ser melhores do que os outros sem que isso deva ser explicitamente «denunciado na praça pública». O sistema de notas tem muito que se
lhe diga, e quando se apontam e penalizam os erros sem valorizar o que se conseguiu de positivo, em nada se ajuda o processo desejável de aperfeiçoamento e de procura de rigor Num ditado de 100 palavras, é dito ao aluno que errou oito, e não que acertou 92.

E nessas oito há erros de diversa índole: enganar-se a escrever o nome próprio, que
já se escreveu centenas de vezes, não é um erro: provavelmente o aluno estava com a
atenção dirigida para o conteúdo do texto e o nome saiu «-de rajada», com uma letra a menos. Qual o problema? Outra coisa poderá ser uma palavra que o aluno desconhecia e que tentou tirar pela fonética. Outra ainda, um compasso de espera que o seu cérebro fez (para pensar) e que lhe fez não entender uma palavra. Outra, finalmente, uma palavra que deveria saber e que, por não ter estudado ou por «se estar nas tintas», errou. Só esta é que deveria contar como «erro»», mas para isso era
preciso que os professores se debruçassem com o alunos sobre as suas performances, o que poderiam ter atingido, o que seria de esperar e o que poderá ser melhorado. E
não, apenas, «dar notas». «Acertaste 92. Excelente, mas vê se não poderias ter acertado mais algumas. E no próximo vê se consegues chegar às 94.»

Para além disso, as coisas que se aprendem na Escola tem de ser também aprendidas noutros lados. As fontes de informação, conhecimento e sabedoria são cada vez mais vastas, da casa à rua, passando pela televisão, Internet, livros, amigos, vizinhos,
casos reais, ficção… a Escola não pode aparecer como «a única que ensina», e o que
deve fazer é complementar tudo o resto, designadamente o que é feito em casa. Esta
ideia (muito grata a certos professores) de que os meninos passam a ser deles e que
eles é que são os seus «grandes educadores» tem algo de perverso e de estranho
exercício de poder. Assim como a atitude dos pais que «dão» os seus filhos à Escola
para que esta «ensine», lavando as mãos como Pilatos.

Há que repensar praticamente tudo e abandonar alguns dos métodos de gerações anteriores. Se tudo mudou, o Ensino não deve ficar estático. Era como continuar a fazer televisão como se fazia nos anos 50, ou jornais juntando letras em tipografias antigas.

Cada criança tem áreas de competência e de talento – e isso passa pela parte cultural, artística, pela música, teatro, pintura, escultura, criatividade – aí a

Escola deve estar atenta, para poder identificar e, eventualmente, dinamizar, essas capacidades. Letras e números são importantes, mas não chega…

A Escola coloca-nos problemas de consciência, filosóficos, conceptuais e práticos.

Como tudo, aliás. Mas o que se sente é que questioná-la é quase um tabu. Os professores consideram-se por vezes intocáveis, dado que são frequentemente vítimas do sistema, da colocação aleatória e desgovernada, dos ordenados baixos e de terem de aturar os alunos (também, como se ser professor não incluísse essa parte). Os alunos são tidos muitas vezes como «anjos» que podem fazer tudo o que querem, e os pais, esses «coitados», andam stressados, com letras para pagar e por isso mesmo é que cumprem os seus deveres fiscais, para remeter para a Escola a dura, terrível
e cruel tarefa de «ensinar». Escola aqui, casa ali, comunidade acolá. Aprender por aprender, ou antes, dar informação por dar informação.

A única ligação que, frequentemente fica, entre a vida escolar e a vida real são os famosíssimos Trabalhos Para Casa (TPC). Será que é assim? Agora que os vossos filhos têm cinco anos, e alguns deles já entrarão este ano para o 1º ano, pensemos um pouco sobre o que esperamos nós da Escola. Existirá uma «escola ideal»? A que temos é suficientemente boa?

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