Os modelos de informação e aprendizagem



São múltiplos os fatores que fazem uma criança, entre o 1 e os 5 anos, definir a questão do seu género e dos géneros das pessoas e das coisas, designadamente:

• Modelo dos pais – desde as relações interpessoais em casa até ao sistema de recompensas: um pai elogiar a filha que trouxe uma flor para a mãe, e criticar o rapaz que fez o mesmo, não estará a ajudar muito uma definição correta do que é essencial;
• Observar as crianças – ver como brincam e procurar entender porque e como o fazem.
Brincar às casas é normal. Um rapaz arranjar o berço para o boneco também. O desenvolvimento das competências parentais – maternal e paternal, existente em ambos os sexos – é essencial nestas idades, e faz-se através da fantasia e da prática com os brinquedos e bonecos. Só preconceitos, atualmente inaceitáveis, é que podem fazer censurar as brincadeiras ou causar receios relacionados com a orientação sexual.
Não se trata disso, mas de coisas muito mais vastas e abstratas na vida atual e futura dos vossos filhos. E é na visão do oposto que eu sei quem sou…;
• Se uma criança vive predominantemente só com um dos pais, é mais complicado por vezes perceber a definição de géneros, porque o progenitor com quem está desempenha os dois papéis: maternal e paternal, ou seja, feminino e masculino, definido com base na noção (incorreta e numa visão a «preto e branco», mas que corresponde à das crianças nesta idade) que um homem não tem papel maternal e uma mulher não tem papel paternal;
• As tarefas a que se vão habituando as crianças, em casa, não podem ser definidas segundo o género, por default: «O João é quem leva o lixo e a Ana quem lava a loiça.» Umas vezes um, outras vezes outro, a menos que depois haja negociação e um entendimento entre eles;
• Os irmãos desempenham um papel fulcral e pode haver tendência à imitação, independentemente do género, mas sim porque para a criança mais velha é um ídolo. E os comentários dos irmãos são importantes:
«Olha, com essa camisola cor-de-rosa pareces uma menina.» – escusado será dizer que aquela criança nunca mais usará roupa daquela cor, a não ser que os pais intervenham e expliquem que não é a cor da camisola que define quem as pessoas são;
• Os avós, nascidos noutra época, tem os estereótipos mais implantados, até porque recusá-los seria rever toda uma vida em que se desempenharam papéis definidos, e isso poderia causar uma instabilidade interna e relacional muito grande. Por vezes são os avós que censuram os netos por este ou aquele desempenho, que atribuem ao género oposto. Deve-se corrigir a mensagem, se estiver errada, mas sem condenar os avós, antes explicando à criança que quando os avós eram novos as coisas eram diferentes;
• No jardim-de-infância, a partir dos 4 anos começa a haver algum espírito de género: eles e elas. Eles são «uns parvos» e elas são «umas estúpidas», uma amostra do que acontecerá mais tarde, com picos no 1.° ciclo e depois aos 12-14 anos;
• A censura do grupo de pares tem uma força enorme, e até pode explicar certas reações – principalmente à roupa, corte de cabelo, etc. -, que, para os pais, podem parecer inexplicáveis. Sem ignorar esta pressão de grupo, há no entanto que desenvolver na criança o sentido de que um grupo não pode esmagar a liberdade individual nem o sentido estético de cada um, nem impor regras que não têm o mínimo de justificação;
• Por último, não esquecer que os meios de comunicação, designadamente nos anúncios, veiculam uma clara noção de estereótipos, também ao nível do género – a rapariga do vermute não é o rapaz do vermute, o rapaz da cerveja não é a rapariga da cerveja.

Perfumes? Elas. Carros? Eles. Isso também é visível nos desenhos animados.

Estes considerandos não excluem que os pais não devam desempenhar um papel essencial na transmissão de valores e na desconstrução de alguns mitos, como por exemplo algumas das mensagens referenciadas na comunicação social. Mas tão importantes como as palavras são os atos, e se homens e mulheres são felizmente diferentes, não apenas anatomicamente, mas em termos de desempenho, há por vezes desequilíbrios relacionais que não se coadunam com o discurso. Os pais não devem emitir juízos de valor sobre os desempenhos de género, como sendo «melhores» ou «piores».

O modelo em que as crianças vivem é essencialmente -maternal-, Pelo menos até ao fim do 1,° ciclo, os educadores e professores são, de facto, educadoras e professoras, e também os enfermeiros, técnicos de serviço social e médicos essencialmente do sexo feminino. Com muita lentidão, este modelo começa a sofrer alterações, mas com alguma desconfiança, se não na orientação sexual, dos envolvidos, pelo menos na sua eventual competência «para tratar de crianças». Disparate total. Se ninguém discute a importância do desempenho do pai desde o primeiro dia, porquê então ver com tanta estranheza a entrada progressiva dos homens no restante mundo da criança?

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