Os irmãos



Tudo pode passar pela cabeça de um irmão de uma criança com cancro. Depende da idade, da personalidade, do lugar na família, dos fatores de risco e dos fatores protetores, da capacidade de verbalizar e exteriorizar sentimentos, enfim, de uma tal multiplicidade de dados que é difícil tipificar o que se vai passar.

O sentimento de culpa é frequente – porque discuti com ele e lhe dei um soco, ficou doente. O sentimento de impotência e a ambivalência de «antes ele que eu, mas porquê ele e não eu?» Ainda por cima, os pais redirigem quase toda a sua atividade e os afetos exteriores para o irmão doente, deixando os outros com a sensação de estarem mais à deriva.

É preciso que os pais consigam – a seu tempo e com o doseamento que só pais e filhos sabem – comunicar aos outros o que se passa, sem esconder a verdade, mas veiculando esperança. Mostrando os momentos em que estão tristes, mas também aqueles em que acordam cheios de força, mesmo que possa parecer enigmática essa mudança, em face de nenhum acontecimento novo que a pudesse justificar. Pouco interessa a lógica de uma dinâmica numa dinâmica sem lógica.

É altura de a família estar unida, coesa e solidária. E os irmãos das crianças com cancro, mesmo quando o desenlace é o pior, crescem e podem tornar-se mais resilientes. Mas tudo depende de muitos fatores. Tantos que as vinte e quatro horas do dia parecem não chegar para organizar.

É comum os irmãos terem também sintomas – em parte para chamar a atenção, em parte por medo que lhes esteja a acontecer o mesmo, exagerando por vezes algumas queixas. E a resposta dos pais pode não ser a mais disponível.
De qualquer modo, é sempre bom levar o irmão ao médico, para que todas as dúvidas se possam dissipar. O sentimento de pena pelo sofrimento físico do irmão é grande – as crianças, mesmo as pequenas, sabem o que é uma injeção, um soro, um hospital.

Não se pode minimizar este facto e é bom que continuem a ver o doente, mesmo que para isso tenham de ir à enfermaria. Por tempo limitado e com a evolução que cada criança precisa, mas nunca fazendo lutos antecipados ou recusas de sofrer que mais tarde se pagam muito caro.

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