O sono



O sono é um elemento fundamental na criança. Mais do que simplesmente dormir, falamos de descansar. E falamos de uma intensa atividade cerebral. Lá está o velho ditado, «a dormir é que se cresce», que pareceria não ter base científica, e que se referiria também a que se as crianças tivessem tempo para dormir ficariam mais calmas e com comportamentos mais assertivos um crescimento psicológico e comportamental. Mas o que é verdade é que se demonstrou que a secreção de hormona de crescimento essa, sim, «faz crescer» , tem um pico nas primeiras horas do sono profundo, enquanto o cortisol, hormona de «combate», tem o seu pico de madrugada, na fase do despertar.

A noite é também o período de tempo em que a criança começa a aprender a ter confiança em si própria e no meio que a rodeia, é a verdadeira prova de fogo, quando os fantasmas e os medos que estão dentro dela. alguns deles herdados genética e culturalmente, se sentem à vontade para sair… e assustarnos… É à noite que a criança passa mais tempo sozinha – e só poderá lidar com essa solidão e com todos os receios e angústia inerentes a essa solidão, se tiver bons mecanismos de autodefesa, auto-estima e autoconfiança… o que não é fácil face à vertigem do dia-a-dia. É à noite, também, que o cérebro faz a gestão dos estímulos recebidos durante o dia. que os trabalha, limpa, seleciona e arquiva, que constrói as associações de ideias e as relações neuronais. Tudo isto leva a que, eventualmente, a actividade fervilhante do cérebro possa abrir algumas «caixas de Pandora», criando personagens e «monstros» que assustam quem os inventa. E as associações de ideias fazem do argumento deste filme, um filme de terror.

Qualquer criança necessita de elementos securizantes no ambiente em que vive.
A exigência da presença de um adulto é normal, enquanto essa segurança não foi «delegada» noutras coisas, designadamente objectos e brinquedos. Há quem diga que uma solução passa por os pais se sentarem com o bebé, e desenharem, cada um, uma coisa que o bebé reconheça: esse elemento (suponhamos: o cão da mãe e o gato do pai) serão os «delegados» dos pais, e o desenho deverá ficar afixado aos pés da cama, do lado de dentro, para que a criança sinta que estão ali as figuras parentais. Aliás, falar-se ao bebé, sempre, desses elementos: «faça ó-ó, bebé, está aqui o cão da mãe e o gato do pai» ajuda a construir essa imagem. Um boneco de peluche (sempre o mesmo), por ser simpático, ter pelo e ser quentinho pode representar também outro elemento securizante.

Se é verdade que fazemos um percurso normal, nos primeiros meses de vida, para um sono «direto» e duradouro, por vezes, contudo, o nosso relógio vai marcando algumas horas para despertar – o bebé
começa a acordar com fome, com frio, com sede, porque tem um «sonho mau», uma dor, ou outra razão qualquer, e depois, com a marcação desses momentos por elementos securizantes – a presença dos pais, o leitinho quente, as festinhas e beijinhos, o colo, as canções e outros rituais para embalar – o despertador biológico fica programado para essas horas, e mesmo sem fome, frio ou dores, o bebé acordará nessa altura… e pedirá mais mimo e mais colo que, por sua vez, ainda agravarão mais esta disfunção do relógio.

Finalmente, convém relembrar que os estímulos tácteis são dos que mais marcam uma criança e fazem um upgrading da sua ansiedade. A noite já é, de si, má conselheira no sentido da falta de calma e de lucidez. Querer dormir e achar que não se deve dormir porque se fica mais inseguro é muito ambivalente e dilacerante – as crianças também não fogem a esta regra. Se os pais recorrem, logo na primeira fase, ao toque, às festinhas e abraços, será mais difícil adquirir hábitos de sono corretos. Levar para a cama dos pais será, então, a regressão máxima e muito dificilmente o problema se poderá resolver.

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