O que está por detrás de uma birra?



Podemos analisar a birra de várias formas. Se descodificarmos o comportamento físico que a criança exibe, claramente constataremos que entrou em disrupção entre o corpo e a mente, ou seja, os músculos e articulações mexem-se aleatoriamente, descarregando energia de forma desorganizada e inconsequente, e descarregando também agressividade. Porque não consegue o que quer, porque as coisas não correm exatamente como queria, a frustração instala-se, os sentimentos mexem-se e remexem.

Ter birras é normal. Nunca as ter pode sê-lo, mas indica mais frequentemente uma disfunção a nível da gestão dos sentimentos.

As crianças não conseguem lidar com muitos sentimentos ao mesmo tempo. Não conseguem porque não têm capacidade de lidar com eles. Por um lado, há ainda uma omnipotência que a faz olhar-se como uma pessoa com vontade (por vezes férrea) que não só não admite ser contrariada, como não entende que as coisas demorem tempo, que têm de ser arranjadas e que mesmo com «escravos» não é de imediato que se fabrica isto ou aquilo. E o nosso pequeno tiranete ou candidato a tiranete, embora comece a entender que, para se viver em sociedade, há que respeitar os outros, partilhar, esperar e muitas vezes desistir ou guardar para melhores dias, ainda não sabe muito bem como o conseguir.

Acresce que, muitas das vezes, a criança já tem um sentido ético desenvolvido (porque os pais o ensinaram) e sabe que o que deseja não é correto, mas ainda não tem força nem saber para conseguir lida com isso.

Trata-se, assim, de uma firmação do «eu», num momento em que a criança começa a sentir a perde do poder associado à omnipotência e sabe que o mundo já não está sob a sua batuta. É uma fase normal do crescimento e uma tentativa de conquistar uma identidade pessoal. Entre a autonomia que quer, mas que ameaça, e a dependência dos pais que protege, mas castra, qualquer coisa faz faísca, os dilemas surgem, e a criança acaba frequentemente num «quero-não quero», como no caso do Samuel, a seguir descrito.

Instala-se uma luta interior entre o diabinho que empurra para o querer, e o anjinho que investe no não querer.

Voltando ao caso do Samuel, a desistência foi dele, como sempre deverá ser. A birra é uma forma de chantagem, mesmo que corresponda a uma desorientação da criança.

Aliás, esta componente de chantagem é muito evidente quando as birras acontecem em locais públicos, lojas, supermercados ou em casa de pessoas com quem as crianças sentem «as costas quentes».

Não se deve ter medo de dizer «não», como relembramos diversas vezes neste livro.

Mas pode dizer-se «não» sem referir a palavra, ou pelo menos sem a vincar e fazer da negativa o núcleo da nossa mensagem, e fazê-lo sublinhando sempre que o amor dos pais pelos filhos é incondicional. Mais, é essencial que os nossos filhos entendam que uma das formas de expressar esse amor é educar para o rigor para a disciplina e para o respeito.

E também é essencial que sintam que há caminhos vedados e sentidos proibidos: não será o -método birra- que fará mudar as ideias dos pais, nem a vitimização.
As birras são muito frequentes:
•Na hora da refeição;
•Em público;
•Em ambientes com muita gente e confusão;
•Quando tem sono;
•Quando tem fome;
•Quando está cansada;
•Quando quer muito uma coisa e não entende porque não lha dão;
• Quando quer muito uma coisa, mas ela própria entende que o seu desejo não é eticamente correto. Perante uma birra, deve, mesmo que seja um exemplar exercício de autodomínio:
• Manter-se calmo;
• Não responder emocionalmente, nem por palavras nem por gestos, olhares ou rigidez corporal;
• Se necessário agarrar na criança, não apenas com objetivos afetivos (lembre-se de que ela está a sentir-se muito infeliz, mesmo que transpareça raiva), mas também para evitar que se magoe, se a crise de «disrupção corporal» for de grau elevado;
• Levar a criança para um local onde possa dar-lhe apoio e conversar sem outras pessoas a comentar, a incomodarem ou a darem palpites sobre o que fazer;
• Dizer à criança que não voltará ao local ou às atividades enquanto não se acalmar;
• Por vezes ter de esperar algum tempo até a criança se reorganizar – há quem sugira um minuto por anos de vida da criança;
• Explicar calmamente que está à espera que ela se acalme, se necessário digam que vai contar até um determinado número (uma dezena por ano) e que espera que até lá tudo esteja resolvido – se vir que ela está a fazer um esforço para se acalmar, pode contar devagarinho;
• Dar-lhe razão naquilo em que ela a tiver: «Sei que estás muito cansado e que te apetecia estar quentinho na cama, mas sabes, os senhores estão a demorar muito tempo a servir o jantar, e por isso é preciso que tenhas paciência, como os meninos lindos e queridos têm, mas tu tens razão…»;
• Nunca ceder, por muitas voltas que a situação dê. A criança tem de perceber que a birra, a desorganização e a falta de lucidez e de autocontrolo não resolvem nada nem são armas permitidas. Mas para isso é fundamental que, perante uma birra, os pais também não façam outra…

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