O futuro das crianças maltratadas



O futuro de qualquer um de nós depende de inúmeros fatores, ocorrências e vivências positivas e negativas, bem como dos fatores de risco e dos fatores protetores e da resiliência própria de cada um, a que se juntam características genéticas e da personalidade.

Assim, apesar de os maus-tratos representarem uma perturbação brutal e trágica na vida de uma criança, temos de ter em conta que ser abusado ou negligenciado não é a única má experiência que se pode ter na infância e que pode influenciar o desenvolvimento da pessoa.

O efeito negativo (ou não) da experiência depende, pois, de numerosos fatores – relacionados não apenas com o abuso em si, mas também com todo o envolvimento, fatores protetores, resiliência e tipo de resposta dos adultos, profissionais e serviços. Não é necessário, pois, ficar-se marcado para a vida inteira.

É claro que a criança tem diversos mecanismos de viver os acontecimentos trágicos, como sejam ignorá-los, branqueá-los ou esquecê-los.

Contudo, esta «estratégia» pode levar a um mau «luto» da situação, e ao reaparecimento de «fantasmas» do abuso, muitas vezes bastante mais tarde na vida da pessoa e, assim, ainda mais difíceis de ultrapassar. Sublimar o episódio e aprender a viver com o evento obriga ao desenvolvimento da maturidade e da capacidade de gestão do stresse. Isto obriga, por outro lado, a um apoio psicológico a longo prazo.

Mais tarde, na adolescência, pode haver uma tentativa de mudança de personalidade e de «vida», arranjando formas de «desaparecer» e trocando o contexto humano e ambiental por outro que não evoque as más recordações nem os envergonhe.

É uma estratégia possível, mas que não garante que não possam reaparecer os ditos «fantasmas», até porque, mais cedo ou mais tarde, algo nesta «nova vida» vai fazer recordar a vida que se deixou.

Quando o mau-trato é infligido por um familiar ou pessoa próxima, as crianças podem ficar desconfiadas e passar a pautar as relações interpessoais por este sentimento e pela amargura, o que também não é uma solução adequada em termos de qualidade de vida e de bem-estar.

Recentemente, tem-se dado particular atenção aos achados da neurobiologia que revelam, sem margem para dúvidas, o efeito biológico dos maus-tratos a nível cerebral, nomeadamente diminuição do crescimento do hemisfério esquerdo (onde reside a inteligência emocional), aumento do risco de depressão, irritabilidade do sistema límbico com episódios de pânico e stress pós-traumático, menor crescimento de algumas estruturas cerebrais e risco de perturbações dissociativas e da memória.

Os maus-tratos a crianças são uma patologia complexa, multifatorial, com grandes áreas de desconhecimento científico, e onde se jogam as facetas mais agudas e, por vezes, perversas da condição humana e das relações interpessoais. Ao contrário de uma doença orgânica, não existe uma solução na ponta da caneta ou no bloco de receitas.

As soluções são mais escassas e exíguas do que os problemas, que todos os dias se tornam mais conhecidos, nas suas diversas apresentações. Cabe-nos, como pais e cidadãos, atuar com rigor, seriedade organização, vontade e motivação.

E, através de uma rede transdisciplinar, tentar proteger a criança e o seu melhor interesse, à luz dos direitos da cidadania, tão bem expressos na Convenção sobre os Direitos da Criança das Nações Unidas. Não apenas nas palavras mas também nos atos.

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