Negligência



Negligência

Define-se «negligência» como a falha em prover às necessidades da criança, em qualquer dos campos – saúde, educação, requisitos para o crescimento e para o desenvolvimento humano e das competências, talentos e criatividade pessoal, habitação e abrigo, segurança ambiental, conforto, etc. – que, em situação normal, devem ser asseguradas pelos cuidadores.

Podem ser muitas as situações de negligência, e a sua definição é diferente de época para época e de cultura para cultura. Não podemos exagerar e pensar que qualquer falha dos pais é um mau-trato por negligência.

O que deve definir, quanto a mim, os erros e falhas que entram neste capítulo são os que:

  • falham no provimento das necessidades básicas (falta de agasalhos, constante comida «de plástico» por falta de paciência para cozinhar, não se preocupar com questões como obesidade infantil, não velar pela segurança);
  • correspondem a falhas graves que podem colocarem risco a vida das crianças (deixar uma criança sozinha em casa para ir jantar fora);
  • resultam do incumprimento, por parte dos adultos, de regras que conhecem e das quais sabem a importância (como não colocar a criança numa cadeira de transporte adequada);
  • resultam de um facilitismo por interesse único e exclusivo dos pais (não colocar a cadeira no carro porque se está com pressa);
  • resultam da menorização do interesse da criança, com consequente falha na proteção, porque os adultos colocam os seus interesses à frente dos da criança (por estar numa conversa ao telemóvel, deixar de vigiar uma criança que entretanto foge e cai pelas escadas abaixo);
  • menosprezam os sentimentos e as características de desenvolvimento das crianças (pensar que se pode dizer tudo o que se quer «que eles não sentem», ou ignorar que estão com sono e continuar numa festa até às tantas da madrugada).

Do contacto com a violência resulta a perda da inocência. Mas pode também resultar o stress pós-traumático, que perturba de modo incisivo e por vezes indelével a vida da criança.

Vale a pena refletir um pouco sobre o stress pós-traumático, que muitas vezes é ignorado depois de resolvida a parte mais imediata de um evento particularmente desagradável.

Para além do apoio às vítimas de agressões ou de outras formas de violência, há que pensar no «depois» porque, passada a refrega, pode subsistir o receio de sair de casa, a desconfiança de ver em cada passante um bandido, o medo dos ambientes estranhos ou a suspeição perante o que não nos é completamente conhecido.

O abandono é, como é referido nos artigos al longo deste site, o grande receio das crianças desta idade. E sentir ausência ou passividade das pessoas de referência, mãe e pai, numa altura em que se sente agredida e violentada, é especialmente traumático.

Não estou a dizer que a mãe do Manei (caso a seguir apresentado) tenha sido ausente ou passiva, note-se, estou a sublinhar que alguns profissionais não pensam que as crianças, para além das gastroenterites, septicemias, infeções urinárias ou pneumonias, são crianças que, até por se sentirem mal e, enquanto animais, sentirem-se mais perto da morte (com saúde nenhum animal morre), necessitam mais de securização.

E numa altura dessas, só os pais podem dar o conforto e o apoio necessários. Além do mais, com a mãe presente, o Manel, ter-se-ia portado melhor e permitido que lhe canalizassem a veia mais depressa.

Nas alturas críticas, as crianças deixam-se confortar. Confundir um momento destes com uma birra é não perceber nada de nada.

As crianças, em muitos locais, são «toleradas», mas vistas como excrescências que só vêm estragar a festa. É aí que os pais têm de mostrar as suas garras e, com bom senso e lucidez, defenderem os filhos sem medo e sem complexos.

Para isso é bom saber a que é que eles têm direito, e depois de dar o desconto de fatores circunstanciais, organizativos e outros, num país que está longe de ser perfeito, não admitir que se passem certos limites, sobretudo se não houver uma razão lógica, científica ou séria.

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