Mitos sobre o abuso sexual Parte II



9. ° Mito

Quando uma criança é vitimada conta logo aos pais ou a alguém…

Facto

Não. Muitas vezes, a dor, o sofrimento, a humilhação e a vergonha são tais que a criança não se sente com coragem de contar a ninguém.

Mais: sendo o abuso cometido, na esmagadora maioria dos casos, por pessoas da confiança da criança, incluindo os próprios pais, ela tem medo de contar por recear não acreditarem nela ou exercerem represálias que ainda a vitimizam mais.

E quando contam não é por palavras expressas, mas por comportamentos muito crípticos e enviesados. Além disso, a culpabilização é tal que têm medo que os adultos se zanguem pelo mal que fizeram a este ou àquele.

10.º Mito

Algumas crianças, mesmo com 4 ou 5 anos, são sedutoras e provocantes.

Facto

E se forem? Crianças não são adultos. E mesmo que tenham comportamentos sedutores, estão numa fase de descoberta do corpo e da sexualidade ou numa fase de Édipo manifesto, e têm esses comportamentos como manifestação de auto-estima e não para serem agredidas de uma forma bárbara.

11.º Mito

Se quisessem podiam evitar as situações, até porque ninguém lhes bateu ou ameaçou…

Facto

O abuso passa sempre por uma fase de ameaça («Se contares a alguém, fico muito zangado!»). Por outro lado, mesmo que a criança dê a sua anuência ou vá atrás de promessas e de presentes, isso não altera uma vírgula ao assunto: as vítimas nunca são cúmplices ou culpadas.

12.° Mito

Os pais ou familiares denunciam sempre a situação…

Facto

Infelizmente não. Gera-se um pacto de silêncio ao redor da questão, porque todos os elementos envolvidos, incluindo as mães e irmãos, e até a própria criança pensam no que têm a ganhar e a perder com a denúncia da situação e, frequentemente, a teia de dependências (afetivas, económicas, sociais, relacionais) é tal que preferem reajustar o modo de funcionamento familiar e, assim, tentar ultrapassar o problema sem ter de evidenciar – ainda por cima com consequências não totalmente controláveis – a sua intimidade e a podridão de parte das suas relações interpessoais.

No entanto, esta «bomba-relógio» acaba por rebentar, mais cedo ou mais tarde.

13.° Mito

O agressor é um doente mental que não tem consciência do que faz…

Facto

Mentira. Tem. E muita. Não é um doente mental, é uma pessoa que procura situações em que, estrategicamente, sabe que a criança está vulnerável e que as hipóteses de sucesso, no seu ponto de vista, são maiores.

14.° Mito

Há sempre violência física, e portanto podem ver-se as marcas…

Facto

Mentira. Nem sempre há, porque a vítima pode estar tolhida pelo medo, incrédula pelo facto de ser um familiar próximo, carente de afeto e justificar o caso como se tratasse de uma forma de mimo, ser comprada por presentes e promessas, ser ameaçada, ser culpabilizada.

Muitas vezes não chega a haver violência física, porque para uma criança desta idade, o toque de uma pessoa de quem gosta é sentido como mimo.

15.° Mito

Os bebés e as crianças muito pequenas nunca são vítimas…

Facto

São. Em qualquer idade. Até em recém-nascidos.

16.° Mito

A criança está a mentir, a inventar…

Facto

Não. Embora as crianças fantasiem, contem histórias, gostem de ser o centro das atenções, na esmagadora maioria dos casos não inventam um assunto tão grave. E os psicólogos e outros profissionais conseguem saber, com um grande grau de certeza, se se trata de invenção ou de factos cruelmente verdadeiros.

17. ° Mito

É melhor ignorar, porque rapidamente as coisas passam…

Facto

Não. Mesmo que pareça que as coisas «passaram», os fantasmas perduram, a sexualidade é dramaticamente perturbada, a inocência é perdida e a criança, mesmo criando mecanismos de adaptação, continua vulnerável e vítima. É sempre preciso um processo terapêutico.

18. ° Mito

Não houve penetração vaginal ou anal…

Facto

Nem é preciso. A lei portuguesa estabelece muito claramente o que são os crimes contra a liberdade e a autodeterminação sexual. E não é preciso haver «violação» no velho sentido da palavra, para existir uma agressão cruel ao que há de mais íntimo e sagrado numa pessoa.

19.° Mito

A criança vai ficar destruída para sempre…

Facto

Não se deve assumir isso à partida, porque é a melhor forma de cruzar os braços e não fazer nada. Se se parar o abuso, afastar o perigo, fizer justiça, houver solidariedade e não culpabilização da vítima, e se se desenhar um processo terapêutico correto e atempado, a criança pode ultrapassar, de modo sólido, este episódio dramático da sua vida. Não é fácil, mas é possível…

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