Manter o amor e o afecto



A continuidade das relações e a sua constância são os elementos essenciais para a boa resolução do caso. A noção de família, de herança genética, de memória não deverá ser perdida. A criança tem uma história passada, mesmo que a presente seja menos agradável. E tem um futuro que não há motivo para que não venha a ser ótimo. É bom que continue a acreditar nos dois progenitores e que não sinta nem se aperceba de traições e de manipulações que, às vezes, roçam o mau gosto e a indecência. Há por vezes cenas ignóbeis de chantagens que só perturbam e culpabilizam a criança. Para além do trauma normal e natural que os filhos sentem nos primeiros tempos, é preciso que existam mecanismos de adaptação e compensação que permitam fazer o luto daquela relação ou daquele modo de vida e entrar na normalidade adaptativa. Se houver bom senso e os dados científicos não mentem o futuro não está comprometido, nem a médio nem a longo prazo.

Vários estudos científicos, entre os quais o famoso estudo das coortes da Ilha de Wight, mostraram que as separações e os divórcios não condicionam per se, nas crianças e jovens, um pior resultado em termos académicos, de integração, de felicidade, saúde, bem-estar e qualidade de vida, mesmo que seja sempre, como não poderia deixar de ser, um abalo e um traumatismo na vida da criança. A questão é que esse abalo e esse traumatismo podem ser ultrapassados ou quedar-se para sempre, conforme a gestão que se faz de cada caso.

É preciso que os filhos entendam, qualquer que seja a idade em que a separação ocorre, mesmo no caso de bebés, que o amor dos pais em relação a eles não está posto em causa assim os pais não o ponham em causa, está claro, e sabemos como o stresse, as novas solicitações, as disputas e conflitos entre exconjuges podem levar a um esquecimento das pequenas-grandes coisas: como um telefonema no dia dos anos, interesse pelos estudos e pelos amigos dos filhos, saídas de vez em quando, etc.

Os pais deverão explicar aos filhos a situação, sem mentiras e sem falsas promessas, mesmo que para a criança exista durante algum tempo a ideia de que as coisas se podem recompor e que a separação ô uma coisa meramente transitória.
Em todo o caso, há que reservar a intimidade da vida do casal e os pais têm direito a isso e não é assim preciso revelar todos os pormenores nem todas as razões. Pais e filhos pertencem a campeonatos» diferentes e não deverá haver uma promiscuidade de sentimentos e de papéis. E os problemas dos pais deverão ser resolvidos entre eles, sem traumas e, se necessário, recorrendo à mediação familiar que pode ser efetuada por várias pessoas, desde o médico assistente até aos técnicos e gabinetes de mediação familiar que já se encontram espalhados pelo nosso país. Os filhos não deverão ser transformados em confidentes ou confessores dos pais, embora esta situação aconteça muitas vezes, particularmente com o progenitor que fica mais tempo com as crianças.

Especialmente importante é valorizar os aspectos positivos de ambos os pais. A imagem que o filho deve ter dos pais deve ser positiva mesmo que, passados alguns anos e aumentando a maturidade, comecem a surgir ideias claras sobre cada um deles e afectos maiores ou menores em relação a cada um deles. Não vale dizer mal do outro (ou outra) mesmo que se pense dele (ou dela) «cobras e lagartos».

A guarda conjunta tem-se revelado um modo muito bom de fazer as coisas.
Ambos os pais devem estar presentes, nos momentos de lazer e nos momentos de trabalho, para evitar os contatos apenas pontuais em que tudo é permitido, inclusivamente a deseducação total e completa, em que as maçadas e o papel de mau sobra para o pai mais presente, bem como para garantir a continuidade dos contatos com a família alargada. Mesmo que os ais se separem, a família de cada um dos pais avós, tios, primos – continua a ser a família da criança. Privá-la do convívio da família é lesar um dos direitos da criança, salvaguardado na Convenção sobre os Direitos da Criança, e um direito da própria família. Os avós têm o direito de ver crescer os netos, com os quais partilham muitos genes e uma herança familiar e cultural. Por outro lado, não têm o direito de entrar nas guerras dos filhos, genros e noras e utilizar a maldicência para conquistar as crianças ou fazê-las tomar um partido (qualquer que ele seja) que nunca deverão tomar.

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