Livros e leitura



Falar de leitura é, para a maioria das pessoas, falar em descodificação do alfabeto.

Mas, para além desse tipo de leitura, há leitura sempre que uma criança interpreta imagens, símbolos, situações representadas no papel, mesmo que de um modo subjectivo e até «errado» (com aspas!).

Ler não é apenas pegar num bloco de folhas, agregadas e arranjadas esteticamente, mas entrar num mundo diferente e fascinante, seja através do livro clássico, seja de outras formas que a extraordinária evolução tecnológica permite.

São vários os objectivos da leitura:

– obter informação, isto é, ter acesso rápido e eficaz a fontes de informação actualizadas e apresentadas de um modo o mais fácil de digerir;
– divertimento e entretenimento;
– apreciação do livro como memória e fonte de criatividade, sinónimo de espaço de tranquilidade e de sossego, antídoto para a voragem do dia-a-dia.

Os dois primeiros objectivos podem ser conseguidos através das várias formas tecnológicas a que as crianças têm acesso. O último, contudo, joga mal com as especificidades da tecnologia, já que obriga a um ritmo vagaroso e saboreado, um exercício de imaginação e de gestão tranquila do tempo, até
muitas vezes nos perdermos nele. Um livro é mais do que um amontoado de páginas com letras escritas ou impressas – é uma transmissão da memória, é a consagração e consubstanciação de ideias e mensagens que alguém – o escritor – decidiu imaginar, criar, organizar, expor e partilhar com os outros. Ao contrário da leitura-informação, o objectivo principal não é acrescentar novos dados para a resolução de problemas, mas sim oferecer situações e histórias que permitam rever, confirmar, debater, mudar e discutir valores, ideias e conceitos, para além do espaço de lazer, divertimento e prazer que proporciona.

O respeito e a atenção que nos merecem são os mesmos que nos merecem as pessoas que nos contam histórias e que nos transmitem parte da sua memória, sem a qual será impossível a humanidade sobreviver.

Algumas pessoas queixam-se de que as crianças não lêem. Já de si é duvidosa esta afirmação. Mas imaginando agora que sim, seriam as crianças e os jovens os principais responsáveis? Os pais actuais, por exemplo, pertencerão eles a uma geração de grandes hábitos de leitura? A falta de tempo, o cansaço, a falta de disponibilidade a vários níveis, outras diversões e distracções que exigem menos das «células cinzentas» (como a televisão), não farão com que alguns pais leiam menos livros e, daí, que as crianças também não adquiram o hábito de ler, tal a desmotivação e a falta de interesse familiar?

Nunca, como até aqui, se editaram tantos livros em Portugal (quase cinquenta por dia, de todos os tipos); contudo, os preços dos livros infantis não são muito generosos, e o hábito de os comprar e oferecer menor. Numa sociedade em que muitos exigem tudo à la minute, em que se «usa e deita fora» os livros, como símbolo da calma, do tempo, do voltar atrás e (re) saborear certas passagens, enfrentam dificuldades. E, no entanto, o ritmo da criança e as características da sua imaginação fazem com que os livros sejam apetecíveis e bem recebidos. Assim os pais o considerem.

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