Estimular para quê?



Quando se pensa em estimulação, há que pensar: o que é que pretendemos com ela? Por vezes, nesta sociedade de informação e de comunicação em que vivemos, confundimos etapas cuja identidade é fundamental manter bem separada: uma coisa é a informação, ou seja, os bytes que entram por todos os órgãos dos sentidos – e na criança não podemos reduzir as fontes às audiovisuais, tal como quase acontece nos adultos, dado que os estímulos olfativos, tácteis e de sabores estão muitíssimo desenvolvidos, para além dos afetivos, claro. Contudo, por melhor e maior que seja, a informação, sozinha não serve para nada.

Tem de ser trabalhada pelo cérebro, analisada, triada, comparada com outras informações, experiências e vivências, e depurada daquilo que é lixo ou irrelevante, processo que se faz principalmente durante o sono.

É assim que se forma o conhecimento. Mas mesmo este ainda não é gerador de nada.

Fica apenas como algo importante e organizado, mas que, se não desencadear nada de substancial, não conta como valor acrescentado para a criança – contribuirá apenas para que a pessoa seja diletante ou «treinador de bancada», o que pode ser engraçado, mas pouco mais do que isso.

É necessário, pois, que se siga uma valorização do conhecimento, em termos éticos e estratégicos, resultante de um processo altamente complexo e muito mais subjetivo de formação de uma intenção, de uma atitude, consubstanciada na resposta à questão:
«Isto é bom ou é mau (ou assim-assim)? Para mim, para os outros, para todos? Agora, depois?» É essa intenção que, ainda sujeita a muitos fatores – instintivos, de bom senso, de adequação – levará a determinados comportamentos, palavras, discursos, medidas ou gestos, com um grau de incerteza e de risco razoáveis, que faz com que nos surpreendamos muitas vezes com o resultado – ficamos alegres porque nos ultrapassámos ou tristes porque falhámos.

A estimulação é, pois, uma das etapas iniciais, mas apenas uma.

Se pensarmos em estímulos, podemos ver que há gamas muito variadas e que os estímulos podem pertencer a múltiplas categorias uns eminentemente físicos e biológicos, outros psicológicos, outros sociais ou espirituais Não podemos comparar um flash de uma luz (é um estímulo visual, que pode inclusivamente provocar doença, mas que não passa de visual) com o canto da voz da mãe ou do pai, que é auditivo, mas muito mais do que isso, tocando várias «teclas» dentro do bebé.

Juntamente com os estímulos que podem ser úteis, porque representam informação capaz de gerar conhecimento, há inúmeros estímulos que são apenas lixo, dado que não acrescentam nada ou até perturbam a gestão dos restantes e agridem a pessoa.

Todos conhecem casos de crianças cuja aprendizagem é prejudicada porque, no jardim-de-infância, ouvem e vêm constantemente estímulos inúteis (e dão atenção a eles, distraindo-se e tendo depois dificuldade na aprendizagem) como o voo de uma mos ca, o brilho do sol no vidro de uma janela ou o ruído dos carros ou dos aviões. E quando o cérebro quer voltar ao estímulo principal – o educador vai com atraso e tem de lazer a ponte entre o que ouviu e o que está a ouvir. Este esforço acaba por cansar, além de que, enquanto tenta fazer esta ponte entre o momento em que «deixou» o educador e o momento em que o «recuperou», tem de ir simultaneamente ouvindo e integrando o que ele agora está a dizer, mas que não faz, muitas vezes, uma sequência lógica porque lhe falta, justamente, esse encadeamento.

Claro que se não tiver tomado um pequeno-almoço correto e estiver em hipoglicemia, ou tiver dormido mal por uma crise de asma, sonhos maus, tosse ou apneia de sono, por exemplo, o problema ainda será maior, dado que o cérebro estará a trabalhar com lentidão. Muitas vezes as crianças são rotuladas de distraídas, inatentas ou lentas, quando o que se passa é uma mera conjunção de fatores adversos.

Comentários

Estimular para quê? | Para Pais.