Educar – como?



Educar, como já disse, é uma tarefa muito complicada. Educar os nossos filhos ainda o é mais.

Pensemos sempre que não somos perfeitos, que erramos e que não vamos conseguir o que nunca ninguém conseguiu – o ideal.

Mas podemos educar com inteligência, com reflexão e com persistência. Com convicção e com valores. Distinguindo o que é essencial do que é acessório. Não tendo medo das crianças mas sabendo compreender os seus motivos e as suas razões. Escutando-as mas habituando-as a escutar. Decidindo sem medo, mesmo que as desagrademos, quando chegar o momento de o fazer. Mãos ao trabalho!

É importante lembrar que hoje em dia e como veremos no capítulo sobre a Família, para além da família mais direta existem as creches e infantários, cuja importância no processo de ensino-aprendizagem nunca é demais sublinhar mas também existem outros espaços, porventura menos referidos, mas que desempenham um papel fundamental na formação das crianças. Refiro-me aos restantes familiares mais distantes, aos amigos, aos vizinhos, ao «espaço-rua», enfim, a todas as situações informais em que a criança contacta com outras pessoas e delas bebe informação, conhecimentos e saberes. E exemplos, também.

Os bebés interagem com tudo o que existe – seres humanos, animais, plantas e objectos inanimados. Com o ambiente e com elas próprias. Estão, por assim dizer, num processo quase constante de partilha de bytes, porventura recebendo mais do que dão, mas potenciando esse fluxo de dados, que vão da mera informação sobre um determinado assunto até coisas bem mais complexas, como valores, comportamentos e atitudes reflexivas.

Ao contrário do que se pode pensar, este processo de «enchimento do disco rígido» (leia-se, do cérebro) e aquisição de competências e apetências, não tem como fonte exclusiva as formas mais estruturadas de organização das pessoas – no caso concreto das crianças, a família nuclear e os atendimentos diurnos. Não se conhecem estudos pormenorizados sobre o assunto, dado que é impossível quantificar, de uma maneira cientificamente séria, qual a influência de determinado input no resultado final, ou seja, até que ponto o que alguém diz, faz, comunica, censura ou aplaude, resulta num valor, numa atitude, numa intenção ou num comportamento por parte da criança.

Sabemos também que há coisas que são mais determinantes do que outras veja-se um exemplo típico que é, ao falar-se tanto da influência nefasta da violência na televisão, estarmos a esquecer que um ato de violência em casa, seja física, seja apenas verbal, uma humilhação, um simples remoque cínico ou despropositado, pode valer mais em termos de «marca para o futuro» do que muitas cenas de filmes ou de séries ficcionais.

A disciplina

A boa disciplina será, pois, a que é:

• imediata, não deixando para «uma próxima oportunidade» o seu cumprimento e as suas consequências. O bebé tem uma noção de curto prazo. Não compreenderá porque é que, daí a dez minutos, se zangam com ele, quando até nessa altura estava a fazer alguma coisa correta.A memória dos bebés não é «rancorosa».

• lógica, ou seja, em que há uma relação causa consequência e um fim que resulta do próprio início. O prémio/castigo tem que ter a ver com o ato.

• coerente, ou seja, aplicável na maioria dos casos que sejam idênticos. Já não digo todos, porque não somos seres perfeitos e porque as agravantes e atenuantes podem funcionar num sentido e noutro. Mas, tal como o árbitro que mostra os cartões amarelos e vermelhos, há que ter um mínimo de razoabilidade e critério. E constância.

• firme e segura. Ralhar, castigar, admoestar, custam. Custam porque o nosso bebé é um ser indefeso, que nos faz «aquela» cara no momento chave. Mas se queremos mostrar que nos regemos por regras, temos que estar convictos delas. Na altura chave não podemos hesitar, titubear ou denunciar nos nossos olhos a fraqueza da decisão. O bebé não vê os olhos – vê a alma. E o interior dos nossos olhos revela o que a superfície, por vezes, tenta encobrir.

• passível de cumprimento. Os pais que «ameaçam» com coisas tenebrosas só conseguem assustar a criança nas primeiras vezes. Depois o bebé entenderá que não irá acontecer nada e que as tais consequências terríveis são apenas parte do teatro. Habituar-se-á à inconsequência. E tentará, mais e mais, até um dia o castigo aparecer, sem aviso e apanhando-o desprevenido. Logo, será traumático.

• posta em prática em todas as situações e ocasiões, e não apenas quando estamos protegidos dos olhares dos outros. O nosso filho perceberá bem se tem as «costas quentes», como estando num café ou restaurante, ou com público para ver a sua performance. Não há que hesitar a disciplina deve ser posta sempre em prática, mais ainda quando surgem essas situações.

• justa e visando a intenção, e não o ato em si. A intenção é que conta ser-vos á fácil entender quando isso acontece. E não subestimem o vosso filho!

• positiva, oferecendo alternativas, soluções e apoios. Não basta dizer «Não!». É preciso dizer quais os caminhos alternativos, e ajudar o bebé a sair da posição em que se encontra para encontrar os caminhos mais seguros, pessoal e socialmente.

• intensidade regulada e equilibrada, adaptada à criança em causa. Não se admitem castigos corporais, humilhantes, decepcionantes. O vosso bebé não é o culpado por os itinerários rodoviários estarem cheios, por o patrão estar mal disposto ou o governo eventualmente governar mal…

•A importância de estabelecer limites No processo de estruturação da pessoa e das suas relações com o mundo físico e com os outros, há a necessidade de mostrar caminhos e indicar percursos. Se estivéssemos no meio do deserto, sem qualquer estrada ou sinal, sentiríamos «a verdadeira liberdade» durante alguns segundos. Poderíamos ir onde quiséssemos. Mas no momento a seguir a sensação seria de receio e de insegurança. E de uma terrível indecisão: ir por aqui ou por ali? Não é por acaso que todas as construções humanas, em termos urbanísticos, têm paredes e muros que indicam vias e caminhos.

Os pais (e não apenas o infantário!) têm uma responsabilidade muito grande no apontar de caminhos. Sejam eles quais forem, mas que correspondam à tradução objetiva dos valores abstractos que, em parte são valores da Humanidade, em parte são valores dos grupos de pertença e das famílias que são as nossas.

Os limites, para serem estabelecidos, têm que ser:

• claros e simples, bem definidos, para não estarem sujeito a interpretações incorretas ou dúbias.

• justos, à dimensão da criança e das suas possibilidades, permitindo alguma ousadia mas favorecendo a proteção e a segurança.

• pressupor consequências para o cumprimento e não cumprimento. Não terá sentido propor algo que tenha consequências iguais, seja ou não cumprido. Por isso é necessário pensar muito bem na escala de «prémios» e «castigos» que se impõem.

• ter aplicação coerente e consistente, ou seja, não podemos ter um regime em casa outro no restaurante, um na rua outro em casa dos avós, um quando estamos sozinhos com o bebé, outro quando estão presentes mais pessoas.

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