Dormir na cama dos pais?



Dormir na cama dos pais é um desejo da criança, sempre que se sente insegura e com medo, na sua cama, no seu quarto. Ela sabe que os pais a protegem, e estar junto a eles dá-lhe a confiança necessária para poder, sem receios, deslizar para o sono e para a vulnerabilidade inerente.
Dormir na cama dos pais é uma das primeiras estratégias da criança, e às vezes, quando já consegue sair da cama, até vai sozinha (enfrentando a escuridão do corredor e do resto da casa) para bater à porta dos pais a pedir albergue.

Não sou partidário de que se deixem as crianças chorar noites a fio na cama delas, quando o seu objectivo único é ir para a cama dos pais. Não é criando mais angústia que se resolve a já existente. Mas essa atitude liberal e compreensiva não exclui que os pais não tentem, por todos os meios, acalmar a criança (primeira fase, e indispensável), depois dar-lhe segurança e confiança (uma pequena luz de presença e a abordagem contida e repetitiva mencionada anteriormente) e, finalmente, tentar que ela readormeça na sua própria cama. Muitas vezes, contudo, esta estratégia falha e eles só sossegam na cama dos pais.

Mas não deixa de ser um erro. Um erro que se paga caro, não apenas em desconforto paterno e incómodos, mas no processo de gestão e desenvolvimento da autonomia e da securização…
O cansaço, o trabalho, o despertador, o complexo de culpa, o «vais lá tu ou vou lá eu», ou «vai tu agora que da última fui eu» levam a que os pais cedam e franqueiem a sua cama aos filhos. Mas é um erro pediatras e psicólogos conseguem, a este propósito, uma unanimidade sem precedentes, embora se reconheça que, se cientificamente a resposta é fácil, a prática não desliza sobre rodas.
A criança precisa, desde que nasce, de aprender a gerir a sua autonomia. E essa gestão pressupõe adquirir níveis de segurança no seu berço, no seu quarto, na casa, que permitam adormecer sem pensar que algo vai acontecer ou que está só e perdido. Se se sentir insegura, vai ficar com níveis elevados de alerta, não conseguindo dormir, se não por exaustão.

Dormir na cama dos pais é, evidentemente, um sossego para qualquer criança diria mesmo, para a cria de qualquer espécie animal. Só que representa, também, para os filhos e para os pais, a solução mais fácil. E enquanto o tempo passa e os outros setores da vida da criança crescem e evoluem, este permanece num estado regressivo, tornando-se cada vez mais difícil a adaptação ao seu próprio espaço.
Melhor será nós ficarmos no quarto dela, sentados uns minutos, do que ceder, mas em última análise, é preciso é que o equilíbrio familiar não estoire. Não se devem brutalizar as crianças forçando-as a ficar sós, horas a fio. Se não se adquire facilmente a autonomia a dormir «debaixo da asa da galinha», também não é à bruta que isso se faz.

Por outro lado, o invadir o espaço íntimo e sentimental dos pais é uma vitória para a criança, um reforço da sua omnipotência e, quantas vezes, um espaço para chantagens, prepotências e birras.
A definição do lugar na hierarquia da família é essencial.
Pior ainda quando um dos pais está ausente (e ainda mais se a criança é do mesmo sexo que esse pai): o processo de substituição fica garantido e a criança sente-se ao nível do pai que não está, medindo depois forças quando estiver na presença dele – é, no fim de contas, o que acontece com muitos pais que se separam, sendo as crianças promovidas ao estatuto de «iguais e confidentes» (das mães, geralmente).
Cada «macaco no seu galho», e cada pessoa no seu espaço de dormir. Mais vale, para o equilíbrio do bebé, que os pais se levantem as vezes que for preciso para o acalmarem, do que estar a franquear a
sua cama. Que ele adormece instantaneamente, é verdade. Que o erro se paga caro em termos de autonomia e equilíbrio da personalidade, também…

Claro que isto não tem a ver com situações extremas, raras e excepcionais, como uma doença, ou com as saudáveis idas para a cama dos pais aos sábados e domingos de manhã estas são libertadoras e um bom momento para toda a família.
A insegurança sentida durante a noite poderá refletir-se no comportamento à luz do dia a criança fica mais irrequieta e insegura, para lá da falta de dormir que lhe poderá dar irritabilidade e má disposição.

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