Criar necessidades? Ou despertar as que já existem?



Os estudos observacionais mais credíveis revelam que:

• as crianças deste grupo etário passam muitas horas a ver televisão, tacto previsível, dado que a televisão transmite uma variadíssima gama de programas, de vários formatos e tipos, e muito apelativos, designadamente quando as crianças, cansadas pela escola, trajectos rodoviários e um dia cheio de estímulos, só desejam uma atividade passiva que quase não exija «ligar» o cérebro.

• a hora a que as crianças mais vêem televisão varia de país para país. A manhã,
que nos EUA e noutros países é uma hora muito requisitada, em Portugal é pouco
utilizada, excepto aos fins-de-semana. Por outro lado, e mais inquietante, é o facto de um grande número de crianças ver TV depois das 20h altura em que começam os
telejornais (com imagens agressivas e até brutais, difíceis de interpretar por crianças desta idade) seguindo-se as telenovelas que contêm problemas e questões não
adequadas a este grupo etário;

• as crianças que vivem em meio urbano são as que mais vêem TV. e muitas vezes sozinhas, seja porque não está mais ninguém presente, seja porque os pais estão ocupados com outras tarefas ou resolveram, simplesmente, comprar uma televisão para o quarto dos filhos. Esta questão levanta outra, que é a das alternativas que têm de
existir, suficientemente apelativas e respeitando as necessidades das crianças. Não é pondo-as em mais actividades que se resolve o problema, mas sim tentando arranjar mais tempo para estar com elas.

O impacte da televisão nas crianças depende de muitas coisas. A infância é um tempo
de grandes alterações físicas, sociais e emocionais – e as mudanças dão-se de forma por vezes abrupta e radical. Os estímulos, motivações, valores e convenções de bebé já não servem, e o desejo de autonomia e afirmação é uma constante, assim como o desejo de procurar um sentido para a vida e de interpretar o mundo exterior e os seus sinais, criando uma escala de valores própria.

A infância é um tempo dinâmico – um tempo de grandes oportunidades – formulam-se atitudes, intenções e comportamentos; adquirem-se estilos de vida, amadurecem-se ideais, mas é, também, um tempo de grande vulnerabilidade às influências externas

Poder-se-á levantar a questão: televisão – amiga ou inimiga? Um pouco de cada.
Cabe-nos a nós, pais, educadores, cidadãos que se crêem responsáveis, fomentar
os aspectos positivos e diminuir os efeitos negativos. Para isso, no entanto, temos de começar por pensar nos modelos que estamos a oferecer aos nossos filhos ou, pior,
a deixar que outros o façam por nós. Mas não desperdicemos uma das maiores e melhores invenções do Homem, rotulando-a e classificando-a de «má»», sem perceber que, tal como todos os fenómenos grandiosos, pode ser bem ou mal gerida, e essa é que é a grande questão.

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