Como se pode ajudar uma criança a «enquadrar-se»?



A definição de género é instintiva, mas numa sociedade de transição e com o acesso que as crianças têm a fontes de informação, como a televisão (talk-shows, telenovelas, notícias), há uma exposição a situações e questões que, podendo fazer sentido aos adultos, não faz às crianças, que até chegarem à vasta gama dos cinzentos precisam de ver primeiro o preto e o branco.

Ficam aqui algumas ideias para os pais pensarem e desenvolverem, de forma atempada e adequada aos seus filhos:

• Não emitir juízos de valor sobre o papel dos géneros, estilo «ah, isso é coisa para mulheres», ou «um homem não chora»;
• Não limitar os brinquedos e as brincadeiras dos vossos filhos, com medo que fiquem gays, masculinizadas ou outra coisa qual- quer. Frequentemente, o uso de papéis do outro género é um role-play em que a criança está a experimentar as sensações dos outros e, portanto, a definir por contraste a sua própria identidade. Cortar esse exercício é que pode ser visto pelas crianças como uma censura ao género que eles estão a imitar ou a teatralizar;
• Por muito que a nossa sociedade ainda muito machista peça, não classificar as tarefas domésticas, profissões, desportos e outras atividades como «de macho» ou de «de fêmea»;
• Encorajar que, rapazes e raparigas, brinquem com todo o tipo de brinquedos e façam todos os papéis no teatro do faz-de-conta. Eles saberão situar-se, ao nível do género, seguindo outros fatores muito mais importantes, como o modelo dos pais;
• Incentivar a que, nos jogos e relações interpessoais, os rapazes respeitem as raparigas e vice-versa. A noção de superioridade (e respetiva inferioridade) de género não pode ter lugar numa educação correta – e não basta dizer, é preciso mostrar o modelo – e, quantas vezes, em casa ou na escola, a relação entre homens e mulheres não enfermam dessa visão errada do género?;
• Ensinar, desde sempre, valores como a privacidade, intimidade e respeito pelo próprio corpo e pelo corpo dos outros, tentando evitar mensagens contraditórias. Estes valores aprendem-se através da exercitação de comportamentos concretos;
• Respeitar a curiosidade das crianças e entender as perguntas provocatórias, mas sem com isso expor a intimidade dos adultos. Por exemplo, por volta dos 3 anos, as crianças têm noção das partes do corpo que são íntimas, até porque vêm que não são mostradas em público (mesmo na praia) e tentam chocar os adultos com a sua exibição, ou podem procurar essa parte anatómica dos adultos para os fragilizar. Convém evitar essas situações, mas sem dar ar de que o adulto se sente tocado; às perguntas da criança só pode haver respostas verdadeiras. Contudo, a verdade pode ter vários níveis de profundidade. E não vale a pena entrar em campos que levam a outros cada vez mais complexos e que poderão causar inquietação e não ajudar a compreender a primeira pergunta;
• Haverá perguntas difíceis ou serão as respostas que as tornam difíceis? Nesta área talvez a segunda hipótese seja a mais verdadeira. As crianças, sobretudo a partir dos 3-4 anos, desejam saber. Muito especialmente se alguém comunica que está à espera de bebé, se sabem que a educadora vai deixar a escola porque vai ter um bebé ou se elas próprias têm um irmão. E podem perguntar: «Como é que se fazem bebés?»
Os pais saberão, melhor do que ninguém, o que é que os filhos poderão apreender, com base no que já sabem, no que a relação pais-filhos permite, e no que querem que os filhos aprendam. Mas perante uma pergunta assim, de chofre, nada como a devolver ao próprio: «O que é que achas?»
Se a explicação da criança for satisfatória e correspondente à verdade dos factos, então é de confirmar: «É exatamente como disseste!». Se for muito distorcida, deve-se tentar veicular a verdade, mas de uma forma simples e sem entrar em pormenores que, para a criança, são irrelevantes. Ela não quer saber como é que têm relações sexuais. Quer saber apenas como é que se fazem bebés…;
• Há que pensar que as crianças são intuitivas e, quando se interessam por um assunto, procuram a informação nas várias fontes que a rodeiam. É sempre bom acompanhar o que sabem, não apenas para reiterar, mas para corrigir conhecimentos que estejam errados.

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