Como explicar a gente tão pequena os sentimentos de gente tão grande?



É muito difícil, para uma criança que viveu um, dois, cinco anos sempre no mesmo modelo, habituada a andar com os dois progenitores para todo o lado, vendo-os inclusivamente numa relação de afeto e expressões amorosas, compreender que o mundo não desabou pelo facto de os pais irem viver cada um para seu lado.

A capacidade de abstração de uma criança desta idade não vai até aí. Pode ser intuitivamente levada a pensar que é melhor, se o ambiente em casa estava um inferno, com gritos, berrarias e afrontas – nenhuma criança gosta de viver assim, e as discussões entre os pais levam, muitas vezes, a que se sinta triste e culpada. Triste pela impotência e porque as pessoas que mais ama estão zangadas.

Culpada por sentir que se se zangam é porque fez algo de mau. Mas a sensação de perda é muito grande e só o decorrer do tempo fará com que entenda mais ou menos que continua a ter uma família.

Acresce que os pais, entretidos emocional e temporalmente nas suas questões, deixam muitas vezes o sentir da criança para segundo plano. E uma criança desta idade ainda não tem recursos – como terá mais tarde – de ir ter com um familiar ou educador e desabafar, procurando ajuda para compreender o que se está a passar.
É normal que os pais se sintam pouco à vontade para explicar a uma criança pequenina o sentido do divórcio e como uma coisa assim aparece.

Mas mais vale, mesmo que atabalhoadamente e com choros pelo meio, serem os primeiros a dizer aos filhos, do que esperarem que eles saibam por terceiros, ferindo para sempre a confiança nos pais. As notícias excelentes e as péssimas que lhes dizem respeito têm de ser dadas pelos que mais as amam e em quem mais confiam.

É natural que crianças desta idade não transitem de uma forma de vida para outra sem se ressentirem. Mas uma coisa serão os episódios físicos ou psicológicos transitórios e não muito acentuados, outra os que podem representar sofrimento intenso ou prolongado.

Este será menor se apesar de tudo, os pais transmitirem a ideia de que estão juntos e unidos no que respeita às crianças, como no caso em seguida apresentado. «Estamos os dois de olho em vocês» – como quem diz, não pensem que deixaram de ter pais ou de ter família.

Entre os 1 e 5 anos, todavia, não se pode esperar que tudo corra sobre rodas e que as crianças consigam separar o que respeita à relação conjugal, horizontal, do que respeita relação parento-filial, vertical.
A constância e a segurança do dia-a-dia, numa «filosofia» de «tudo mudou, mas nada mudou», ajudará a conseguir ultrapassar os tempos mais difíceis. De qualquer modo, todos os estudos de longo prazo mostram que as crianças não se virão a ressentir desde que os pais saibam colocar os interesses delas paralelamente aos seus próprios e não desfaçam a imagem do outro nem utilizem as crianças para fins de aliados, cúmplices, armas de arremesso ou confidentes.

No que respeita aos filhos, é fundamental assentar que a dissolução do casal «conjugal» não implica a dissolução do casal «parental». A criança verá, sempre, nos pais, a sua família e as suas origens.

Mesmo depois da fase em que tentará uni-los, em que acreditará que qualquer sinal de aproximação significa que o que viveu foi um pesadelo e agora irá acordar e tudo voltar ao que era dantes, para ela, criança, o pai e a mãe são a sua família.

A arte estará em fazer com que isso continue e que seja diferenciado da relação conjugal, ou seja, que a criança sinta que os pais viverem juntos ou separados só altera a logística das coisas, mas não o amor que sentem por eles e reciprocamente.

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