Brincar é uma atividade complexa



Brincar não é uma atividade feita de gestos gratuitos e sem nexo, como muitas vezes a desconsideramos; porque o que a criança faz é supostamente «coisa de criança». Mas não. Brincar é uma das atividades mais elaboradas porque, para além de indispensável, desenvolve a criatividade, o imaginário, a imaginação, a alternância, o sentido figurativo e representativo, e a organização dos gestos, das falas e dos cenários. Não há outra atividade tão completa como o brincar. Dizia o Professor Robert Debré, um grande pediatra, companheiro de Jean Jaurés e fundador da Unicef, que até as amibas brincam: após uma fase em que agitam os seus prolongamentos em busca de comida, continuam a fazê-lo, nem que seja para tocar em outras amibas se não é para recolher alimentos, então fazem-no provavelmente para brincar.

Jogar e brincar fazem, pois, parte da vida e não devem ser abandonados só porque se cresce. Os adultos às vezes têm vergonha de revelar esta faceta que classificam de Infantil, talvez porque, hoje, se exige produtividade e isso é, para a maioria, sinónimo de seriedade.

Mas brincar é normal, desejável, pedagógico, terapêutico… é bom e dá prazer, com grandes vantagens biológicas, psicológicas e sociais. Não há nada mais instintivo do que brincar: vejam-se, por exemplo, os animais domésticos: um cão, um gato, como brincam. O ser humano sempre brincou e, se calhar, em vez de nos chamarmos homo sapiens, porque sabemos muito pouco, devíamos, talvez chamarmo-nos homo fudens porque brincamos realmente muito. Estamos talhados para isso, embora brincar também não seja sempre sinónimo de felicidade e de alegria.

Brincar, como tudo na vida, pode significar frisfeza, sofrimento, mas é mesmo assim que as coisas são.

O século xx ficará provavelmente para a História como o Século da Criança.
Depois do reconhecimento gradual e sequencial dos Direitos Humanos, dos Trabalhadores, das Mulheres, registou-se neste século um movimento crescente a favor dos Direitos das Crianças e dos Adolescentes, tão bem resumidos na Convenção da ONU sobre os Direitos da Criança. E o direito a brincar está consagrado no artigo 31.°. Porventura o artigo 31 a, que não existe, deveria dizer que brincar é também um direito que não se extingue nem tem prazo é um direito do ser humano, seja como refúgio para a ferocidade do mundo, seja como estratégia para amansar esse mesmo mundo, em qualquer idade da sua vida.

Brinquemos, com as pessoas, com as situações, com os objetos, com o dia-a-dia. Organizemos o nosso trabalho como se fosse um jogo, uma brincadeira. Vamos ter muito mais prazer em trabalhar. Em ser adultos. E em ser pais.

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