Avós: personagens centrais



Ser avó ou avô é uma honra. Uma benesse. Significa que um dos objetivos mais agudos e prementes da Humanidade se cumpriu a perpetuação. As gerações vindouras representam a Eternidade e a concretização do prolongamento da vida das gerações precedentes. Transmitir valores, comportamentos, tradições e conhecimento é tarefa obrigatória dos mais velhos.

Os avós e os netos podem ser cúmplices porque os extremos se tocam, mas com a tolerância e a satisfação também ela cúmplice dos que ocupam a faixa do meio.

Infelizmente os tempos são outros e a realidade também. Os avós já não moram com os filhos e com os netos, nem na mesma casa, nem na mesma aldeia ou bairro vêm apenas visitá-los. Já não assistem nem ajudam ao parto da filha vão à maternidade no dia seguinte, na «hora da visita». Já não bordam o enxoval do bebé – trazem do «xopingue» tudo já feito, por qualquer trabalhador ou criança anónima da Coreia ou da República Popular da China, a metade do preço. Claro que não há propriamente um modelo estereotipado de avós. A «instituição avós» tende a acabar diz-se. Talvez. Mas mais do que acabar tende é a modificar-se.

Por exemplo, e como já referi, viver em comum, com mais do que duas gerações, como era habitual, tornou-se mais raro. Em consequência, o contacto entre as gerações passou a ser uma excepção e não uma regra, sempre com objetivos mais ambiciosos do que simplesmente estar, partilhar culturas, experiências e saberes, repartir alegrias (e tristezas), calor humano e episódios anedóticos.

Os mais velhos que já tem pouca voz política e social, qualquer dia perdem-na no seu ecossistema mais próximo – o familiar. Podem-se dar alguns exemplos:
as quarentenas pós-doença com o mimo dos avós, as histórias e contos ao deitar, o recordar tempos idos (mesmo com muita falta de rigor histórico compensada com o picaresco da espontaneidade), os passeios aos parques, jardins ou simplesmente pela rua, lanchar com os avós, praticar as artes e ofícios dos mais velhos, aprender a cantarolar as mesmas músicas de antigamente, conhecer as tradições (o «Pão por Deus», as Janeiras, o jogo da malha e tanta outra coisa). Isto não é incompatível com o progresso, pelo contrário. É parte dele, pois progresso significa obrigatoriamente o respeito pela pessoa e pelo Homem. Senão será retrocesso e não progresso.

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