Ato um – ir ou não à maternidade



E discutível se uma criança deve ou não ir à maternidade. Cada família decidirá por si, e dependendo da idade da criança, do tempo que a mãe ficará na maternidade, dos apoios que se possam ter fora e de muitas outras coisas.

No entanto, há alguns aspetos para os quais gostaria de chamar a vossa atenção relembrando que é um momento fundamental para todos, mas para a criança também. Poderá haver algum conflito de interesse entre os vários membros da família: mãe, pai, filho. Pensar prioritariamente no da criança será o melhor, dado ser o membro mais vulnerável:

  • numa altura em que só a verdade conta e que a criança está com receio de ser troca- da ou abandonada, ela estará atenta aos pormenores, porque é neles «que o diabo se esconde». Herdeira dos sobreviventes, como nós, é uma desconfiada por natureza e por instinto. Andará, por isso, a ver se os pais diziam a verdade ou não;
  • visitar um hospital, mesmo que se chama maternidade (pública ou privada, tanto faz – as luzes são sempre «de hospital», as batas brancas e o soro com agulha…), onde a criança sabe que vão os doentes, e dizer que a mãe não está doente é algo de absurdo. Das duas, uma. Ou algo está errado
  • no local, e coitada da mãe – e a criança sofrerá por isso – ou estão-lhe a mentir e a mãe está mesmo doente. E se não lhe querem dizer a verdade, então provavelmente vão mentir sobre muitas outras coisas, ou será que a mãe adoeceu por alguma coisa que ela, criança, fez? Ou será que é o mano que já está a causar a doença da mãe mesmo antes de ter nascido?
  • ver o bebé ao lado da mãe, designadamente a mamar, pode ser complicado porque deteta, em todos os movimentos e expressões da mãe, a paixão desta pelo bebé. Será também assim em casa, mas num ambiente externo, que não compreende totalmente e em que a sua presença é limitada, o choque pode ser maior;
  • mas mesmo que, durante a visita, tudo possa até correr bem, com o novo mano a um canto, sem ocupar demasiado espaço na relação, há um momento «fatal», em que, sabe-se lá porquê (nem nós adultos, percebemos muito bem), a mãe farta-se da criança e a expulsa do quarto, e o pai colabora arrancando-a da mãe e levando-a para longe, deixando a mãe sozinha com o bebé, ou seja, a opção foi feita e o momento seguinte será apenas saber onde a abandonarão – é assim que a criança interpretará o que se passa;
  • se o internamento for curto – como na esmagadora dos casos, mesmo com cesariana -, é provavelmente preferível deixar a criança com avós ou tios, com quem ela esteja bem habituada, para um «programão» enquanto os pais «vão ali ter um bebé», coisa que é chata e não é apetecível. Pelo contrário, o programa que a criança vai ter é fabuloso, cheio de coisas interessantes e variadas;
  • se por acaso for à maternidade, então explicar que a casa onde se têm bebés, que é uma casa como a nossa (deveria na realidade ser muito semelhante) está fechada para obras e que por isso a mãe teve de ir para ali, mas que não está doente…foi tudo por causa das tais obras;
  • antes da enfermeira ou da auxiliar entrarem a anunciar que «senhoras visitas e meninos têm de sair», o pai pode dizer à criança algo como: «Olha, não sei o que tu pensas, mas eu estou farto de estar aqui. Está calor, não se faz nada, apetecia-me imenso ir comer
  • um gelado e se calhar comer um hamburger. Alinhas nisso?» «E a mãe?» «A mãe não pode, olha quem fica a perder é ela, mas agente depois amanhã traz-lhe um bocadinho para ela não ficar gulosa.» Isto não é mentir, é contar a verdade de uma forma leve e sem angústia;
  • depois de sair, e se a criança quiser regressar, dizer «Olha, eu estou cheio de sono e se calhar devíamos ir para casa, eu vou contar-te umas histórias e amanhã, cheios de genica, voltamos lá. Não achas que era um bom plano?».

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