As diferenças bio antropológicas



Até há cerca de 20 anos pensava-se que os rapazes e as raparigas eram iguais, tudo dependendo de como os pais e os restantes adultos os tratavam. As catadupas de investigação entretanto surgidas mostram que há diferenças neuro comportamentais, para além das evidências anatómicas. E essas diferenças, constatadas no cérebro e nas funções cerebrais, condicionam sentimentos, modos de apreciar os eventos e comportamentos.

Esta forma diferente de «estar», que tem a ver com desígnios antropológicos muito antigos, inclui os comportamentos em áreas como o risco e a gestão do risco, expressão da agressividade, capacidade de aprendizagem, maturidade, visão a longo prazo, traduzindo-se em diferenças, por exemplo, nos comportamentos de risco acrescido ou nos acidentes.

A linguagem é um bom exemplo das diferenças de género, como a atenção ou o campo visual. A evolução genética não muda da noite para o dia – o caçador ou guerreiro tinha de ter um campo visual estreito, para fixar a presa ou o inimigo e perceber os sinais indiretos da sua presença. Não podia, pois distrair-se com estímulos acessórios e laterais. Da mesma forma, as respostas orais tinham de ser lacónicas, curtas, secas.

As mulheres, pelo contrário, na sua condição de cuidadoras e guardadoras das crianças, em espaços circulares fechados, tinham de ter um campo visual alargado e perceber rapidamente o ambiente que as rodeava. E como uma das suas funções era entender a trama do tecido social, a chamada «intriga», tinham de falar demoradamente, descrevendo tudo o que podiam, atendendo a todos os estímulos presentes.

Nas salas de aula ainda se observam bem estas diferenças, na atenção, na maturidade, na assunção de responsabilidades e no tempo que as crianças aguentam certas atividades, entre outros exemplos. A colocação dos rapazes e das raparigas numa sala de aula, no jardim-de-infância, é essencial: eles deverão estar na linha da frente e elas poderão estar mais atrás, por exemplo quando se está a contar uma história, tentando diminuir os estímulos distrativos (luzes, vozes, reflexos, etc.) que afetarão mais a eles.

Um dos órgãos responsáveis pelo sistema emocional cerebral é a chamada amígdala (que nada tem a ver com as amígdalas da garganta), onde se gerem muitas das emoções negativas, e que se desenvolve mais cedo e melhor nas raparigas. Isto faz com que, desde muito pequenas, elas consigam melhor transmitir os seus sentimentos em comunicação verbal ou outra, enquanto os rapazes ficam mais atrapalhados nessa conversão, podendo bloquear por impossibilidade de expressar o que sentem antes de o interlocutor «contra-atacar».

Outra diferença marcante, sobretudo depois do ano e meio tem a ver com a exploração dos locais e das situações novas: os rapazes são geralmente mais ousados, mais ativos fisicamente, praticando o que se chamam as «dependências dominantes». As raparigas não são menos ativas perante o meio e as pessoas, mas exploram-no de outra maneira, com menos imposição «fálica», e mais sedução e charme. Exploram o que se denomina por «dependência íntima», que passa pelo toque suave e pelo colo.

Dado que também têm uma melhor motricidade fina, mais precocemente do que os rapazes, entretêm-se mais cedo com atividades calmas e manuais do que eles, que são mais atabalhoados nos gestos e preferem o exercício do corpo de forma global, lido por vezes pelos pais como comportamentos «abrutalhado».

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