As «cólicas das sete da tarde» ou do fim do dia, para ser mais preciso



O bebé dormia bem. tranquilo, mas agora parece despertar ao mínimo barulhinho.

Estremece. Abre os braços. Fecha as mãos.
Encolhe as pernas e fica muito encarnado.
Às vezes bolça. E chora. Desalmadamente. A expressão é de «infelicidade». Faz beicinho. E nem sequer se contenta com a mamada. Quer alguma coisa e os pais não conseguem entender o que é que ele quer, o que lhes aumenta a frustração. É nessa altura que se desdobram em telefonemas e visitas ao médico, administração de preparados anticólicas, ouvem-se os avós, os amigos, os colegas, para saber se alguém tem «a solução mágica» que resolverá o problema. Mas o bebé não se contenta com nada, e não consegue dizer o que lhe vai na alma…

Como é que isto foi acontecer, quando afinal até estava tudo a correr tão bem?
Será uma otite? Cólicas?

É preciso que os pais entendam que este tipo de situação vai, com toda a probabilidade, acontecer. Trata-se de uma fase de organização do cérebro, que terá que ser percorrida para se atingir um grau de maturidade superior. Como um exame para passar de ano.

É preciso, também, que os pais retirem de cima de si qualquer sentimento de culpa, por «não estarem a fazer o que deviam.

É normal, faz parle da vida do bebé, ajuda o bebé a encontrar níveis mais perfeitos de organização e de consolo.

Às vezes lá se ouve uma palavra amiga: «o meu era assim e passou. Já nem me lembro bem, ou antes, quando me recordo da minha figura até me rio de mim própria: como é que ficava tão em pânico, quando ele era um bebé normalíssimo».

Mas outras vezes os conselhos vão no sentido contrário: «Vê lá, que se calhar é melhor ir ao médico. Faz assim. Faz assado. Dá de mamar. Não estejas sempre a dar de mamar. Dá-lhe colo. Não lhe dês colo porque o estragas com mimo.»

Um parênteses para vos perguntar uma coisa: ponham-se na pele do bebé, acabado de nascer, ainda com um cérebro com muitos ficheiros para preencher, e imaginem o que é o buffer já estar cheio de informação e de estímulos. O que o vosso bebé tem é uma overdose de estímulos. E precisa de descomprimir.

De dizer «Chega!-, de dizer a si próprio: «Chega!»

E aí aparece o choro ritmado, intermitente, que expressa um grande desconforto. Quer dormir mas não consegue dormir. Acalma-se ao colo, mas mal o pousam no berço começa outra vez a chorar com insistência. E logo ao fim do dia, quando a mãe está extenuada e o pai acabou de regressar do trabalho, cansado porque já não dorme há várias noites, e os irmãos vieram da escola e dão largas à sua energia, correndo, saltando, fazendo birras para ir para o banho ou para a mesa. Parece que o Inferno aterrou diretamente em vossa casa.

O que é necessário é manter a calma e procurar não estimular mais o bebé, dado que ele já está a transbordar. Tudo o que lhe permita reorganizar-se (música, embalar, dar banho em ambiente calmo) ajuda-o a reencontrar-se.

Depois comerá e adormecerá. E o anjinho que vêem a dormir repousadamente, no berço, é o mesmo bebé que, uns momentos antes, parecia estar de mal com todos e com a vida. E esta imagem de amor e de afecto perante um ser tão pequenino, mas que já tenta resolver as situações por ele, mesmo que com dificuldade, dar-vos-á a força interior necessária para, no dia seguinte, e por mais uns tempos, tudo recomeçar (parece) da estaca zero. Até o vosso bebé se organizar e passar à etapa seguinte…

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