Antecedentes que marcam



Há traumas que não se podem minorar. Injeções, punções, soros endovenosos, analises, pontos. É portanto natural que uma criança que tenha tido essa experiência não se sinta muito à vontade em ver-se outra vez deitada, despida, em cima de uma marquesa.

A melhor atitude não é contrariar com o vulgar e ineficaz «Não tenhas medo!», mas expressar solidariedade e compreensão: «Sei que te doeu muito quando estiveste no hospital (ou quando fizeste aquele dói-dói na perna), mas olha que aqui não é a mesma coisa. Não tens nenhum dói-dói, pois não? Isto é mesmo para ver se já estás boa…»

Sublinho a importância de que, nos hospitais e serviços de urgência, se pugne por atitudes empáticas e de respeito. O episódio de doença passa, os profissionais nunca mais vêem a criança, mas qualquer traumatismo desnecessário pode ficar.

Atualmente há livros didáticos sobre as idas aos médicos, com os heróis favoritos (Ruca, Diogo). Há estojos de médicos com todos os materiais. Mesmo assim, uma coisa é a ficção, outra a realidade.

E se a criança se sente um excelente médico dos seus bonecos, já não é tão líquido que goste, antes dos 3 anos, de ser ela a paciente. Um ambiente de cumplicidade pode ajudar: «Já sei que és a doutora Tal. Tens tido muitos doentes?

Olha, se abrires a boca como um leão dou-te um pau para veres a garganta aos teus bonecos.» – Posso assegurar que só muito, mas mesmo muito raramente é necessária espátula para observar uma criança.

A observação de uma criança costuma ser no meio da consulta, ou seja, depois da primeira parte, em que os pais falam das suas questões e em que se abordam a alimentação, higiene, desenvolvimento, prevenção de acidentes, etc., e antes da parte final, em que se resume a situação, vêem os percentis, receita-se. Em alguns casos, se a criança está muito ansiosa (geralmente com medo de levar uma «pica»), pode ser preferível observa- da logo, para depois não haver ansiedade e os adultos poderem conversar o que têm a conversar, designadamente sem ruído.

Aliás, é frequente crianças que não dizem uma palavra, soltarem a língua mal descem da marquesa e tornarem-se numas autênticas taramelas.

O sono (não dormir a sesta), fome, cansaço ou doença – ou, simplesmente, estar-se num «dia não» – podem ser fatores potenciadores de pouca cooperação numa consulta.

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