A sexualidade na criança do 1 aos 5



Já passaram os tempos em que as crianças não tinham direito a uma coisa chamada sexualidade. Durante largos séculos a sexualidade «caía do céu», na adolescência, como se fosse um raio do divino, e só depois dessa idade se admitia que o ser humano fosse sexuado.

Não é o que se pensa atualmente. Sabe-se que o ser humano tem um componente de sexualidade em todas as fases da sua vida: desde a relação com o peito da mãe e com a mãe, descrita como «erotizada», até aos jogos de sedução que faz com os progenitores do sexo oposto. Outra coisa não seria de esperar, aliás, porque a sobrevivência da espécie (a par da sobrevivência pessoal) é um dos elementos mais fortes do comportamento instintivo.

A sexualidade caracteriza-se pelo cruzamento de vários parâmetros que evoluem em sinusoides, cruzando-se «em alta» ou «em baixa» conforme as idades. Todavia, desprover o ser humano, seja em que idade for, de sexualidade, porque se a reduziu às relações sexuais, é não entender o que são pessoas, e o resultado só pode ser trágico.

A sexualidade, em qualquer idade, expressa-se por vários parâmetros, com intensidade e importância variável, e é representada, em cada pessoa e em cada momento, pela soma das partes:

•Afeto
•Ternura
•Conhecimento do corpo
•Exploração dos limites relacionais
•Experimentação
•Companhia
•Comunicação
•Sedução
•Erotismo
•Prazer pessoal
•Prazer dado aos outros
•Procriação

A sexualidade é feita, portanto, de algo muito mais rico do que simples relações «carnais». As crianças têm algumas destas vertentes mais desenvolvidas, outras manifestamente menos. Mas pensar que não têm prazer quando, por exemplo, manipulam os seus órgãos genitais, ou que não comunicam quando tentam, dengosamente, «dar a volta» aos pais revela demasiada ingenuidade. E os adultos têm de ver as coisas como elas são, e é por isso que já não acreditam no Pai Natal.

Aos 15 meses, o bebé começa a interessar-se pelo cocó e pelo xixi. Não é sinal de que é «porcalhão», mas que percebe que há algo que sai dele. Aos 2 e meio sabe claramente se é rapaz ou rapariga, e que os dois sexos têm anatomias diferentes. Por vezes tende a explorar o corpo do pai ou da mãe com interesse redobrado e, também aqui, não podemos colocar na cabeça da criança ideias e perversões que não tem. Não quer dizer isto, de modo nenhum, que os pais permitam que a criança manipule os órgãos deles. O conceito de intimidade e privacidade deve existir desde sempre.

Fazer juízos de valor sobre episódios como o que foi acima apresentado é contraproducente. Os comentários e perguntas das crianças têm de ser respondidos com verdade e normalidade.

Não se poderá desmentir o Carlos dizendo que as maminhas da senhora eram pequenas, ou que ele não deve falar sobre maminhas. Mas pode-se ensinar que não é bonito tecer comentários sobre o físico dos outros, sejam maminhas grandes ou cabelos cor-de-laranja.

As brincadeiras que incluem um componente sexual são normais mais para o fim deste período, perto dos 5 anos. É a velha história de «brincar aos médicos». Depois de conhecer o seu próprio corpo e de se aperceber que há corpos diferentes, a criança quererá ver o outro, para conhecer e constatar a sua própria anatomia. Mais uma vez, qualquer visão menos própria do assunto existe apenas na mente dos adultos. É por isso que é importante frequentar estabelecimentos escolares mistos, mesmo que, em certos momentos, as crianças se organizem nas brincadeiras de acordo com o sexo.

Quando as crianças fazem sorrisinhos quando vêm, por exemplo, alguém dar um beijo na boca, não significa que entendam tudo e até para além do tudo, como um adulto, dado não existir, nesta idade, fantasia sexual. Sorriem (e é saudável sorrirem), porque sabem já o que é íntimo e o que não é, sabem entender que há algo de transgressão, mas não assumem mais do que o que vêm.

Por isso é que assistir a relações sexuais, como no caso que relato neste capítulo (e como pode acontecer se as crianças dormirem na cama dos pais), é muito traumático, porque é lido como luta, violência e subjugação. Os gritos de prazer são interpretados como gritos de dor, de aflição, de violação. Pior ainda se se trata de alguém que lhes é querido, como os pais.

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